Ambiente livre do tabaco beneficia até fumantes

Ambiente livre do tabaco beneficia até fumantes
"Isso equivale a sair de um período de horas parado em um túnel congestionado de carros, numa capital poluída como São Paulo, para o ar respirado em um parque arborizado," diz a pesquisadora.
[Imagem: Ag.USP]

Benefícios sem reclamações

O Instituto do Coração (Incor), ligado à USP, acaba de concluir um estudo de avaliação do impacto da Lei 13.541 de Ambientes Livres de Tabaco, que completa quatro meses em vigor em São Paulo.

A pesquisa, realizada em parceria com a Vigilância Sanitária, concluiu que o banimento do cigarro em ambientes fechados traz melhora incontestável para a saúde de frequentadores e funcionários de bares, restaurantes e casas noturnas.

E mais: o estudo concluiu que inclusive os fumantes se beneficiam.

Menos monóxido de carbono no ar

Em 12 semanas desde a implementação da lei, a concentração de monóxido de carbono (CO), um dos principais componentes da fumaça do cigarro, caiu de 5 partes por milhão (ppm) para 1 ppm.

"Isso equivale a sair de um período de horas parado em um túnel congestionado de carros, numa capital poluída como São Paulo, para o ar respirado em um parque arborizado", compara a doutora Jaqueline Scholz Issa, cardiologista e coordenadora da pesquisa do Incor.

Em ambientes parcialmente fechados e abertos, a Vigilância Sanitária registrou, na primeira medição, respectivamente 4 ppm e 3 ppm. Na segunda medição, três meses depois, esses mesmos locais apresentaram registros médios de apenas 1 ppm de CO no ambiente.

"Os resultados enterram de vez o conceito do fumódromo até mesmo em locais parcialmente fechados. Não há ambiente seguro para o ser humano com qualquer concentração de fumaça do cigarro no ar", diz a pesquisadora do Incor.

Até os fumantes ganham

O estudo do Incor concluiu que a melhora da qualidade do ar impacta positivamente até mesmo na saúde dos fumantes.

Na medição antes de a lei entrar em vigor, em 6 de agosto deste ano, o ar expelido por garçons fumantes apresentou nível médio de 14 ppm de monóxido de carbono - extremamente danoso para a saúde cardiovascular.

Doze semanas depois, essas mesmas pessoas submetidas ao mesmo exame apresentaram média de 9 ppm. Para garçons não-fumantes, o impacto positivo é ainda maior - passaram de um índice de 7 ppm para 3 ppm.

Variável biológica

O trabalho do Incor é o primeiro no mundo a utilizar a variável biológica, o monóxido de carbono, como indicador de redução de risco de exposição ambiental à fumaça do cigarro, como explica Jaqueline. "Os estudos mundiais fazem apenas inferência entre o banimento do cigarro em lugares fechados e a diminuição da incidência de mortes e internações por infarto na população."

Nos países em que a lei vigora há mais tempo, houve redução de 10% a 30% no número dessas mortes e internações. Esse é o resultado que a equipe de pesquisadores do Incor espera encontrar também em São Paulo, na segunda fase do estudo, que deve terminar em agosto de 2010.

A expectativa é de que o mesmo ocorra no Rio de Janeiro, onde os pesquisadores do Incor iniciaram estudo idêntico ao de São Paulo, em novembro de 2009, antes de entrar em vigor a lei de ambientes livres do tabaco naquele Estado.

O que o monóxido de carbono causa à saúde?

No organismo humano, o monóxido de carbono concorre com o oxigênio - isso significa menor oxigenação do sangue, células e tecidos e, consequentemente, maior oxidação no organismo.

Aos poucos, essa condição metabólica acelera o envelhecimento do endotélio, que é a camada de células que formam a parede de vasos e artérias do corpo humano.

Num processo em cascata, surgem inflamações e obstruções dessas vias de passagem do sangue no organismo, que, nessa condição, não conseguem alimentar de oxigênio e nutrientes as células, tecidos e órgãos do corpo humano.

Esse processo de envelhecimento acelerado dos vasos é conhecido como aterosclerose e sua evolução leva à ocorrência de infarto do miocárdio e de acidente vascular cerebral, além de trombose em membros diversos.

Metodologia da pesquisa

A pesquisa do Incor foi realizada em parceria com a Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, responsável pela medição do nível de monóxido de carbono em 710 casas noturnas, bares e restaurantes da cidade de São Paulo, antes e depois de a lei entrar em vigor.

Nesses dois momentos, além da poluição ambiente pela fumaça do cigarro, também foram medidos os níveis de monóxido de carbono expirados por funcionários desses estabelecimentos - cerca de 200 tabagistas e 200 não-tabagistas.

Os primeiros resultados do estudo foram analisados ao final de três meses de vigência da lei. Ao final de 12 meses, ou seja, em agosto de 2010, o estudo trará o impacto da lei sobre o número de mortes e internações por infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o fumo passivo ainda atinge 94,6% da população mundial.


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