Armazenar sangue de cordão umbilical é como comprar terreno na Lua

Lucro para empresários

Apesar do nome longo e complicado, o "armazenamento de sangue de cordão umbilical para uso autólogo" é uma prática cada vez mais popular no Brasil.

O preço alto, que pode variar de R$ 2 mil a R$ 7 mil, além da manutenção anual que é, em média, R$ 500, não desestimula pais preocupados com o futuro bem-estar dos filhos.

Preocupados, mas não bem informados.

Para o presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), Carmino Antônio Souza, a desinformação sobre o serviço faz com que a maioria das famílias pague um preço alto na esperança de uma promessa sem fundamento.

"As pessoas precisam saber que terão um gasto grande para manter uma célula sem nenhuma função. Elas acreditam que o que foi coletado é um seguro de vida para o filho. A coleta em si não é garantia de qualidade. É um negócio que tem favorecido vários empresários, mas o favorecimento das famílias é remoto", comentou. "É como comprar um terreno na lua. Pode até ser legal, mas você vai fazer o que com a escritura de um terreno na lua?" pergunta Souza

O médico ressaltou que no caso da leucemia, principal causa de câncer em crianças e a mais citada pelos bancos privados como forma de prevenção à saúde, a utilização do próprio sangue de cordão para o transplante não deve ser realizado.

"Existem estudos que demonstram que o genoma da pessoa já traz essa predisposição à leucemia", contou, ao explicar que uma célula-tronco de outra pessoa seria mais eficaz. "E pode ser adquirida gratuitamente nos bancos públicos", completou.

Promessas vazias

Embora o número de bancos privados, atualmente 17, tenha se mantido o mesmo desde 2010, dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que a quantidade de cordões armazenados vem crescendo substancialmente desde 2003. Entre 2009 e 2010, o número de cordões passou de 8.866 para 11.456.

O presidente da ABHH lembra que a terapia celular ainda está fase experimental e não há previsão de quando o tratamento com células-tronco poderá ser utilizado de forma sistemática e segura.

Outro ponto levantado por ele é que, mesmo que no futuro haja descobertas, passados cerca de 20 anos da coleta, a qualidade do sangue é reduzida.

Para o gerente da Anvisa, Daniel Coradi, os bancos privados não contribuem para a saúde pública. "Eles [os bancos] armazenam para uso próprio, reduzem a doação desses cordões para os bancos públicos e prejudicam a política nacional para transplante baseada no altruísmo".

Preocupada com a questão, a Anvisa vai lançar, no fim de março, uma cartilha para alertar os futuros pais sobre o armazenamento do sangue de cordão umbilical para uso próprio.

Coradi explicou que a iniciativa, que conta com o apoio do Instituto Nacional do Câncer (Inca), foi impulsionada pela constatação de que muitos pais pagam caro para congelar o sangue dos cordões umbilicais dos filhos na crença de que estão adquirindo um seguro de vida.

"Na verdade, o uso dessas unidades é muito restrito. E nosso intuito é esclarecer aos pais essa realidade para que eles tomem uma decisão consciente," disse Coradi. "Alguns bancos acabam fazendo propaganda sobre o uso da célula para o tratamento de uma série de doenças, o que ainda está sendo pesquisado."

Panfletos em salas de espera de consultórios ginecológicos e de maternidades são facilmente encontrados com a promessa de salvar a vida do bebê por meio do uso do sangue do cordão umbilical do próprio recém-nascido em casos de doenças futuras, hoje incuráveis. Os preços podem variar de R$ 2,5 mil a R$ 7 mil e ainda existe a taxa de manutenção que varia entre R$ 500 e R$ 700.

Em abril de 2010, a Anvisa determinou adequações no material publicitário de bancos de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário para uso autólogo, depois de identificar itens irregulares, como informações que possibilitariam interpretação errônea a respeito da utilização das células do sangue de cordão umbilical e placentário, resultando em falsa sensação de segurança para os pais ao adquirir um serviço que, de fato, não tem meios de assegurar a saúde futura dos filhos. Um ponto pouco esclarecido para os pais é que crianças prematuras costumam ter uma quantidade de sangue no cordão umbilical insuficiente para a coleta.

Bancos públicos de sangue de cordão umbilical

E o Brasil vai ganhar até 2014 mais cinco bancos de sangue de cordão umbilical e placentário para integrar a rede brasileira, Brasilcord, criada em 2004, que conta atualmente com 12 bancos públicos desse tipo de sangue. O coordenador da BrasilCord, Luiz Fernando Bouzas, informou que uma unidade será inaugurada em Minas Gerais, em meados deste ano.

O investimento médio em cada banco da expansão da rede foi R$ 3,5 milhões, financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Já existem quatro bancos em São Paulo, devido à densidade populacional, um no Rio, um no Paraná, em Curitiba, no Rio Grande do Sul, Ceará, Pará e em Pernambuco.

"Ainda faltam cidades importantes devido a características genéticas para serem cobertas. E os próximos bancos serão construídos nos próximos dois anos nos estados do Amazonas, Maranhão, da Bahia, de Mato Grosso do Sul. Com esses 17 bancos, esperamos ter a cobertura de todo o território nacional, com uma amostragem da população brasileira armazenada," disse Bouzas.

"As doações ocorrem de forma organizada, dentro de maternidades conveniadas, onde as pessoas estão treinadas para coletar o melhor material possível," informou o coordenador da Brasilcord. "O nosso aproveitamento do que é coletado nas maternidades no Brasil fica entre 60% e 70%".

Atualmente, entre 800 e 1.000 pessoas no Brasil buscam doadores compatíveis para transplante de medula óssea todos os anos. A coleta e o armazenamento de cada unidade custam em torno de R$ 3 mil para o Sistema Único de Saúde (SUS). A importação de unidades de sangue de cordão umbilical, vindas de registros internacionais, fica em torno de R$ 50 mil.

De acordo com Bouzas, que também é diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea do Instituto Nacional do Câncer (Inca), atualmente há doadores para cerca de 70% dos pacientes, 50% no Brasil e mais 20% no exterior, por meio de convênios com redes internacionais de bancos de sangue de cordão. Ele explicou que entre 10% e 20% das pessoas que precisam de transplante de medula óssea não têm doador compatível devido às suas características genéticas muito selecionadas. "Nesses casos, deve-se buscar doadores os mais compatíveis possíveis".

O transplante de medula óssea é indicado para pacientes com leucemia, linfoma, anemia grave, anemia congênita, hemoglobinopatia, imunodeficiência congênita, mieloma múltiplo, além de outras doenças do sistema sanguíneo e imune.


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