Biblioteca de células-tronco guarda características genéticas brasileiras

Biblioteca de células-tronco guarda características genéticas brasileiras
O material genético dos brasileiros poderá ser usado em terapia, desenvolvimento de novos medicamentos e estudos de doenças. Na imagem, os neurônios derivados das células-tronco pluripotentes têm seus núcleos destacados em azul.
[Imagem: Fabiano A. Tofoli/LaNCE]

Biblioteca de células-tronco

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram ter criado uma coleção de células-tronco pluripotentes capaz de refletir a mistura genética da população brasileira.

"Além do uso em terapias, essas células-tronco poderão ser úteis no desenvolvimento de novos medicamentos - complementando ou até mesmo substituindo testes em animais e aumentando a segurança dos ensaios em humanos. Também poderão auxiliar no estudo de doenças comuns em nossa população", disse Lygia da Veiga Pereira, coordenadora do trabalho.

A equipe já vinha cultivando há alguns anos linhagens de células-tronco embrionárias derivadas de embriões congelados durante procedimentos de fertilização in vitro. No entanto, análises genômicas revelaram que essas linhagens não eram representativas da população brasileira, apresentando mais de 90% de ancestralidade europeia.

"Esses embriões vinham de clínicas privadas, às quais apenas uma pequena parcela da população tem acesso. Os serviços públicos não congelam os embriões excedentes por uma questão de custo. Decidimos então firmar parceria com o grupo do ELSA-Brasil [Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto]," conta Lygia.

Células-tronco induzidas

Financiado pelos ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia, o ELSA é um estudo multicêntrico que vem sendo realizado desde 2008 em seis universidades brasileiras de diferentes estados. Ao todo, são acompanhados 15.105 homens e mulheres entre 35 e 74 anos, sendo 5 mil deles no Hospital Universitário da USP.

Os voluntários passam por exames periódicos com o objetivo de se identificar o risco de doenças cardiovasculares e diabetes. De acordo com o médico Paulo Lotufo, no primeiro exame foram colhidas e guardadas amostras biológicas, que posteriormente serviram de base para a criação da nova biblioteca de células-tronco.

Reprogramação celular

A equipe fez uso de uma técnica premiada com o Nobel de Medicina em 2012. O método consiste em inserir na célula adulta - nesse caso, células do sangue periférico dos voluntários - certas proteínas capazes de reprogramar o genoma celular.

Esses fatores de transcrição, como são conhecidos, ativam genes relacionados ao estágio embrionário da célula e desligam outros genes que deveriam estar ativos após o amadurecimento. São criadas assim células-tronco pluripotentes induzidas (IPS) que podem, com o devido estímulo, se diferenciar nos mais diversos tecidos do corpo humano.

Genética tupiniquim

"Criamos uma biblioteca inicial com 23 linhagens celulares apenas como prova de conceito. Mas temos amostras de 1.872 indivíduos e podemos criar novas linhagens de acordo com a demanda da comunidade científica ou de laboratórios farmacêuticos", afirmou Lygia.

As células que integram a nova coleção apresentam entre 14,2% e 95% de ancestralidade europeia; entre 1,6% e 55% de ancestralidade africana; e entre 7% e 56% de características indígenas - sendo consideradas representativas da mistura genética que caracteriza a população do país.

Essa biblioteca de células-tronco poderá ser útil no teste de fármacos candidatos a se tornarem medicamentos, permitindo que as drogas sejam avaliadas para a população brasileira antes de serem aprovadas.


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