Brasil prefere que pesquisas sobre zika sejam feitas no país

Reclamações

Cientistas norte-americanos e europeus estão reclamando de dificuldades no acesso a amostras brasileiras do vírus zika.

De acordo com a reclamação, pesquisadores estrangeiros estariam se valendo de amostras de epidemias passadas - em locais como Polinésia Francesa e Uganda - para fazer seus trabalhos, o que não é considerado ideal.

O objetivo seria garantir que eventuais avanços científicos beneficiem em primeiro lugar a população brasileira - a mais atingida até agora pela epidemia de zika.

Patrimônio genético nacional

Contudo, Paulo Gadelha, presidente da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz, vinculada ao Ministério da Saúde), disse não poder enviar amostras para o exterior devido à nova lei que protege o patrimônio genético nacional, ainda não regulamentada.

A lei seria importante para evitar situações já ocorridas no passado, como o caso em que amostras de sangue de índios ianomâmis foram parar nos Estados Unidos sem autorização. A mesma norma protege também o patrimônio ambiental, evitando, por exemplo, a retirada de plantas nativas do país, o que poderia provocar prejuízo econômico.

Desenvolvimento local

Em nota, o Ministério da Saúde disse que está à disposição dos órgãos internacionais desde o início das investigações sobre a relação entre o vírus zika e o aumento no número de casos de microcefalia.

Oficialmente, o discurso é de colaboração tanto por parte da OMS como do governo federal. Mas a ênfase brasileira é toda na recepção de cientistas para projetos conjuntos, e não em apenas enviar amostras ao exterior.

Ao mesmo tempo, cientistas da Universidade do Texas coletaram materiais no país para uma pesquisa que procura desenvolver uma vacina para o zika, parte de uma parceria entre o Brasil e os EUA.

O Ministério da Saúde enumera diversas iniciativas em que os pesquisadores estrangeiros vieram ao Brasil, como no caso de especialistas ligados ao Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) - que trabalham na parceria entre os dois países e levaram amostras consigo. Afirma ainda que, segundo o ministro Marcelo Castro, as portas estão abertas para receber e treinar especialistas da América Latina.

Ponderações

Amilcar Tanuri, do Laboratório de Virologia Molecular do Instituto de Biologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que está estudando o zika, diz não ser contra o envio de amostras.

"A ciência é uma só e temos todos que colaborar. Mas acho também que pelo menos 90% das pesquisas que estão sendo feitas lá poderiam ser feitas aqui. Temos capacidade técnica para isso. Os americanos e europeus poderiam criar um consórcio conosco e vir trabalhar com a gente. Meu laboratório está aberto," afirmou.

O infectologista Fernando Bozza, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, que também está trabalhando com o zika, levanta outras questões:

"No caso de uma epidemia, é fundamental e central que toda a comunidade científica possa trabalhar. Para isso, é importante que os trâmites legais sejam mais rápidos, como está previsto nessas emergências. Mas a pesquisa com seres humanos é regida por várias legislações diferentes, e temos que proteger os indivíduos. Não posso pegar uma placenta de uma mãe ou material de um feto morto e mandar pra fora, por exemplo, sem a autorização dessas pessoas, para começar," esclareceu.

Além disso, segundo Bozza, o vírus zika era muito pouco estudado até agora e, por isso, não existiam muitas ferramentas disponíveis para pesquisa, como amostras clínicas.


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