Cafeína: dose e idade definem entre remédio e veneno

Cafeína: a dose e a idade definem entre remédio e veneno
Não existe um consenso na comunidade científica sobre qual seria o limite diário de segurança para a ingestão de cafeína.
[Imagem: Wikimedia Commons]

Em um ditado que tem sido repetido à exaustão pela ciência moderna, o médico e alquimista medieval Paracelso afirmou que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose.

No caso da cafeína, a diferença pode estar também na idade de quem a consome.

Enquanto em indivíduos adultos a substância parece proteger o cérebro de danos causados pelo estresse que podem desencadear quadros depressivos, na vida intrauterina ela pode atrapalhar o desenvolvimento cerebral e representar um fator de risco para doenças como epilepsia.

As conclusões são de estudos feitos com animais de laboratório por um grupo que envolve pesquisadores da Alemanha, Estados Unidos, Brasil e Portugal.

Cafeína e depressão

"Tentamos reproduzir no modelo animal aquilo que todos nós humanos sentimos naquele momento da vida em que tudo vai mal. O carro quebra, perde-se o emprego, termina-se um relacionamento amoroso, descobre-se que um amigo tem câncer. Tudo é uma desgraça e, muitas vezes, esse conjunto de situações dá origem a um quadro depressivo", contou Rodrigo Cunha, da Universidade de Coimbra.

Com base nesses testes, os pesquisadores concluíram que o grupo tratado com cafeína apresentou uma quantidade significativamente menor de sintomas depressivos em relação ao controle.

Esse efeito parece ser mediado por um receptor celular existente em grande quantidade nos neurônios, chamado A2A para adenosina, um dos componentes da molécula de ATP (adenosina trifosfato), que é essencial para o metabolismo energético.

Novos estudos precisam agora ser realizados para validar o receptor A2A como um alvo terapêutico para tratamento da depressão em humanos.

"O grande problema de transpor essa informação para o homem é que somos sempre mais complicados. O receptor é uma proteína formada por uma cadeia de aminoácidos e essa cadeia pode ter pequenas variações de acordo com cada indivíduo. Isso é o que chamamos de polimorfismo genético e é o que faz as pessoas serem mais ou menos sensíveis à cafeína," explicou Cunha.

Cafeína na gestação

Em outro estudo da equipe foram avaliados os efeitos do consumo da cafeína durante a gestação e a lactação em camundongos. Estudos em humanos já demonstraram que o consumo de cafeína durante a gravidez reduz o peso do bebê.

"Observamos que a cafeína causa um atraso na migração para o hipocampo [região cerebral relacionada com memória e percepção espacial] de um grupo específico de neurônios gabaérgicos [que secretam ácido gama-aminobutírico]. Eles atingem o alvo, mas com um atraso de vários dias. Isso atrapalha o processo de construção do cérebro e causa um desequilíbrio", contou Christophe Bernard, responsável pelos experimentos.

O efeito foi observado tanto na análise do tecido cerebral de camundongos quanto de macacos, que apresentam maior semelhança com os humanos.

"Em decorrência do desequilíbrio causado pelo atraso dos neurônios, os filhotes se tornaram mais suscetíveis a sofrer de epilepsia e a apresentar convulsões febris. E apresentam um limite de tolerância ao aumento da temperatura corporal cerca de 1,5 grau Celsius menor," contou Bernard.

Limite de consumo de cafeína

Presente não apenas no café, mas também em diversos tipos de chá, refrigerantes, chocolates e bebidas energéticas, a cafeína é de longe a substância psicoativa mais consumida no mundo.

Não existe um consenso na comunidade científica sobre qual seria o limite diário de segurança para a ingestão de cafeína - por exemplo, já se demonstrou que a cafeína no café expresso pode ser demais para pessoas sensíveis.

Segundo relatório publicado em maio pelo comitê científico da Autoridade Europeia para Segurança Alimentar (EFSA), o consumo de até 400 mg ao dia (cerca de 4 xícaras de café) por indivíduos adultos com em média 70 kg e que não estejam gestantes não representaria riscos significativos de saúde.

Para mulheres grávidas ou lactantes, o valor supostamente seguro seria de 200 mg ao dia.

Bernard defende a necessidade de realizar estudos clínicos que confirmem se a quantidade de 200 mg ao dia é de fato segura para o desenvolvimento cerebral durante a gestação ou se pode representar um fator de risco para o desenvolvimento de patologias na vida adulta.


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