Chás alucinógenos têm propriedades analgésicas e anticancerígenas

Chás alucinógenos têm propriedades analgésicas e anticancerígenas
O químico Manoel Trindade Rodrigues Júnior, que descobriu princípios ativos anticancerígenos e analgésicos em chás usados em cerimônias religiosas, como o Ayahuasca e o Santo Daime.
[Imagem: Antoninho Perri]

Chás medicamentosos

Ao pesquisar chás alucinógenos, como o ayahuasca, empregados em rituais religiosos e por tribos indígenas da Amazônia, cientistas da Unicamp descobriram uma grande variedade de propriedades farmacológicas.

Entre os efeitos dos chás estão a atividade antiparasitária contra leishmania e a atividade citotóxica contra células de linhagens de câncer humano, além da atividade analgésica sobre o Sistema Nervoso Central (SNC).

Uma destas substâncias mostrou uma atividade analgésica comparável à da morfina, o que deve gerar um pedido de patente pela Unicamp e pelos pesquisadores Manoel Trindade Rodrigues Júnior e Ronaldo Aloise Pilli, responsáveis pelas descobertas.

Beta-carbolinas

A pesquisa demonstrou o grande potencial de um grupo de substâncias, conhecidas como beta-carbolínicas, como estruturas privilegiadas para o desenvolvimento de novos medicamentos.

O trabalho foi feito em duas linhas: a busca pela atividade farmacológica das beta-carbolinas e o esclarecimento sobre como esta atividade é produzida no corpo humano.

Algumas beta-carbolinas já são substâncias naturais reconhecidas por sua destacada atuação sobre o SNC como a reserpina, droga indicada para pessoas hipertensas.

Ensaios preliminares

Os ensaios realizados até aqui, comenta Manoel Trindade, apesar de significativos, são ainda preliminares e sugerem uma série de outros ensaios in vivo antes que a propriedade analgésica observada possa levar à produção de um novo medicamento.

Estes testes, esclarece Pilli, em geral demoram entre cinco e dez anos. Dependendo dos resultados, este período pode ser maior ou menor também em razão do interesse e da inovação para o estabelecimento de uma nova terapia.

Manoel Trindade desenvolveu várias metodologias de síntese dessas substâncias, em continuidade a trabalhos anteriores do grupo do qual ele faz parte, quando as bases metodológicas para a preparação dessa família de compostos foram estabelecidas.

Rotas de síntese

Na ocasião, foi esboçada uma rota de síntese para preparação de compostos naturais isolados de fontes marinhas.

"O nosso interesse era confirmar a estrutura química desses compostos, uma vez que eles tinham sido isolados em pequenas quantidades e a sua estrutura tridimensional ainda não havia sido perfeitamente estabelecida", explica Pilli. Esta mesma rota, revela ele, foi aproveitada nesta pesquisa.

Desenvolver essas rotas de síntese assimétrica eficientes permitiu a preparação de um conjunto de substâncias naturais, dentre as quais se incluem a tripargina, deplancheína, debromo arborescidina, harmicina, cantin-6-ona e 10-metoxi-cantin-6-ona e dois análogos da harmicina.

Efeitos analgésicos

Posteriormente, houve uma avaliação farmacológica que incluiu a avaliação da atividade citotóxica, leishmanicida e sobre o SNC que foram realizados em colaboração com o grupo do professor João Ernesto de Carvalho, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp, e do professor Sergio Albuquerque, da Universidade de São Paulo, de Ribeirão Preto.

Somado aos efeitos analgésicos visivelmente pronunciados que foram encontrados para algumas das substâncias sintetizadas, também observou-se que uma das substâncias se destacava pelas suas atividades citotóxica e leishmanicida. Os ensaios biológicos deverão prosseguir, segundo o seu autor, com a ampliação do número de substâncias a serem preparadas e testadas em razão dos resultados já alcançados.

Chás alucinógenos têm propriedades analgésicas e anticancerígenas
Equipamentos usados nas pesquisas: ensaios biológicos vão prosseguir para confirmar os resultados iniciais.
[Imagem: Antoninho Perri]

Remédios naturais

"Estima-se que aproximadamente 25% das novas substâncias farmacologicamente ativas descobertas nos últimos 25 anos são produtos naturais ou derivados de produtos naturais. Esse número sobe para mais de 50% se incluirmos produtos sintéticos que mimetizam produtos naturais ou cujo grupo farmacofórico é inspirado em produtos naturais", informa Pilli.

"Daí a importância de estudar os compostos naturais e desenvolver novas metodologias para alcançar a síntese destes compostos com bons rendimentos, amparando-se na síntese orgânica catalítica e assimétrica. Afinal, ao longo da evolução, esses metabólitos secundários foram selecionados de modo a interagir com alvos biológicos, garantindo vantagem adaptativa aos seus portadores. Trata-se portanto de estruturas pré-validadas do ponto de vista de atividade biológica."

O grupo da Unicamp vem acenando, há algum tempo, na direção de aproveitar substâncias que são encontradas na natureza e que possam se constituir plataformas para o desenvolvimento de substâncias com propriedades farmacológicas relevantes.

"A natureza tem sido a principal fonte de busca de um grande número de fármacos que foram e estão sendo desenvolvidos. A nossa contribuição está em aproveitar algumas destas substâncias, desenvolver um método de síntese em laboratório que eventualmente possa ser aproveitado em escala industrial e, ao mesmo tempo, prover a preparação de análogos de substâncias naturais", resume Pilli. "Isso muitas vezes colabora para melhorar a performance de uma determinada substância farmacologicamente ativa, já que a ideia é minimizar os efeitos indesejados simultaneamente à manutenção da atividade terapêutica desejada."

Manoel Trindade acredita que estudos futuros precisarão ser realizados com a síntese de outros análogos, a fim de se alcançar uma clara correlação entre estrutura química e atividade farmacológica, além de poder avançar no entendimento do modo de ação dessas substâncias no que se refere à atividade contra parasitos, contra células de câncer humano e atividade analgésica. O que ele sequer imaginava era que a vida que levava em Aparecida de Goiânia, na região metropolitana de Goiânia, quando trabalhou como vendedor de picolés, office-boy e marceneiro, algum dia lhe traria a versatilidade necessária para atuar como pesquisador e lançar luz sobre temas ligados à Síntese Orgânica.

Chá Ayahuasca

Ayahuasca, nome quíchua de origem inca, refere-se a uma bebida sacramental produzida a partir da extração de duas plantas nativas da floresta amazônica: o cipó Banisteriopsis caapi (caapi ou douradinho), que serve como IMAO (classe de fármacos que inibem a ação da monoamina oxidase), e folhas do arbusto Psychotria viridis (chacrona), que contêm o princípio ativo dimetiltriptamina. É também conhecida por yagé, caapi, nixi honi xuma, hoasca, vegetal, Santo Daime, kahi, natema, pindé, dápa, mihi, vinho da alma, professor dos professores, pequena morte, entre outros.

O nome mais conhecido, ayahuasca, significa "liana (cipó) dos espíritos". A ingestão de yagé permite aos xamãs sonharem e se transportarem ao mundo espiritual ancestral. O chá é utilizado ainda pelos incas e também por pelo menos 72 tribos indígenas diferentes da Amazônia e em países como Peru, Equador, Colômbia e Bolívia.

O uso dessas plantas pelos mestiços em geral acontece dentro do contexto da etnomedicina e segue os princípios gerais do emprego tradicional dos nativos (uso xamanista) com modificações e acréscimos pertinentes aos diversos sistemas de crenças religiosas importados com a colonização.

A sua utilização se expandiu para outras partes do mundo, com o crescimento de movimentos religiosos como o Santo Daime, A Barquinha, Natureza Divina e a União do Vegetal. Muito do que se pratica e conhece sobre ayahuasca vem da observação e do conhecimento empírico acumulado pelos indígenas.


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