Cientistas relatam cultura de trabalho antiético com células-tronco

As pesquisas científicas em células-tronco foram mais uma vez flagradas em controvérsias, cedendo lugar ao pessimismo em um campo que nasceu oferecendo promessas revolucionárias.

A área continua promissora, mas as "falsas descobertas" vêm-se avolumando.

Assim, não se pôde evitar uma espécie de "bom demais para ser verdade" quando cientistas japoneses e norte-americanos anunciaram uma forma simples para produzir células-tronco sem genética.

Agora a pesquisa está sendo investigada sobre "inconsistências".

É muito cedo para dizer se os dois artigos científicos relatando os resultados terão de ser retratados.

Mas, para a área das pesquisas com células-tronco em geral há uma sensação de déjà vu: está longe de ser a primeira vez que resultados promissores sucumbiram depois de tomados por uma nuvem de suspeita.

Mas o que é que torna as pesquisas com células-tronco tão propensas a problemas, falhas e fraudes?

Fraudes e comportamentos antiéticos

Indiscutivelmente, os potenciais ganhos comerciais e médicos no campo das células-tronco são maiores do que em quase qualquer outro campo da medicina hoje, o que pode levar alguns a se apressarem e colocarem o carro na frente dos bois - ou os resultados pretendidos à frente dos experimentos.

Para ter uma ideia das tensões que os pesquisadores da área enfrentam quanto à necessidade de publicar resultados marcantes, a revista britânica New Scientist realizou uma pesquisa com cientistas renomados da área com garantia de anonimato.

O levantamento é pequeno, mas sugere que há algo de podre no reino das células-tronco: um número preocupante dos entrevistados admitiu saber sobre fraudes ou comportamentos antiéticos nas pesquisas com células-tronco.

O problema também se reflete negativamente no "empreendimento científico", mostrando a realidade de suspeitas antigas, de que institutos, financiadores, publicações científicas e jornalistas recebem incentivos para "dourar" resultados das pesquisas.

Pares e ímpares

Supõe-se que a revisão pelos pares - a norma de que um artigo científico é avaliado por outros cientistas não envolvidos no trabalho antes de ser publicado - deveria dar conta das situações problemáticas, mas muitas vezes a prática provou ter mãos furadas.

Outra preocupação é que o ciclo de sensacionalismo e decepção pode impactar as atitudes do público em relação à ciência.

Em uma pesquisa recente no Reino Unido, por exemplo, 35% do público diz acreditar que os cientistas "ajustam seus resultados para obter as respostas que eles querem". A nova pesquisa feita com os próprios cientistas sugere que pode haver um pouco de verdade nisso.

Felizmente, há sinais de um sistema mais robusto emergindo das bases, daqueles cientistas preocupados em manter a ciência nos trilhos: cientistas blogueiros descobriram problemas nos últimos artigos sob suspeita apenas algumas semanas depois de sua publicação.

No momento, esse tipo de exame crítico é uma parte não-oficial do sistema de revisão pelos pares: talvez ele deva se tornar rotina.


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