Como a psiquiatria começou a inventar doenças

Escondendo os problemas

A subjetividade está ligada à alma, à essência humana? Ou ela pode ser reduzida a relações fisiológicas circunscritas ao cérebro, células e moléculas?

A problemática pode ainda ser expressa de outra forma: tristeza profunda, estado de angústia, dificuldade de aprendizagem e sentimento de fracasso são percalços que fazem parte da condição humana ou são patologias que necessitam de tratamento médico porque o ser humano não deveria ter essas coisas?

Dado o elevado consumo de medicamentos psicoativos, ou antidepressivos, observado no Brasil e no mundo, parece que a visão dominante é a dos múltiplos diagnósticos e síndromes psiquiátricas.

Contudo, as consequências prejudiciais dessa visão, alimentada durante décadas, começam a se mostrar mais claramente do que a problemática que ela procura tratar.

"Limitar nossos sofrimentos decorrentes de problemas sociais a explicações neurológicas ou hereditárias contribuirá para obscurecer os problemas concretos que, em muitos casos, provocaram os sofrimentos", destaca a doutora em filosofia Sandra Caponi na apresentação de seu mais novo livro - Loucos e degenerados: uma genealogia da psiquiatria ampliada, lançado pela Editora Fiocruz.

Doenças inventadas

É crescente a lista de problemas que se transformaram em objeto de intervenção da psiquiatria, dentro da chamada medicalização: os conflitos da vida social são agora pensados em termos médicos.

"As explicações reducionistas levarão a minimizar a capacidade de refletir sobre nós mesmos e restringirão as possibilidades de criar estratégias efetivas para dar resposta a nossos problemas", continua a professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Na pesquisa que originou o livro, Sandra foi buscar na história os elementos que ajudam a entender como se naturalizaram essas explicações biológicas para as condições humanas, expandindo a psiquiatria e tornando-a uma estratégia biopolítica.

A problemática pessoa foi expandida para se tornar uma questão que exigia uma solução social.

Ao contrário dessa psiquiatria ampliada, a psiquiatria clássica se negava a reduzir as alienações mentais a explicações materialistas - era o que defendia Philippe Pinel.

Mas certamente não foi essa a corrente vencedora.

Psiquiatria ampliada

Jean Pierre George Cabanis pegou o conceito de degeneração, originário da história natural, e aplicou-o à medicina, em um trabalho que foi o germe da ampliação da psiquiatria.

Nessa expansão é preciso "curar" ou, antes, prevenir as condutas socialmente indesejáveis.

É daí que surgem as etiquetagens daquilo que é normal e do que não é, na medida que o anormal constitui um desvio do padrão e uma ameaça à ordem - um conceito muito ao gosto do positivismo, muito em voga nos primeiros passos da psiquiatria.

E a psiquiatria tomou para si a solução das síndromes da degeneração.

"Assim, a transformação que permitiu que a psiquiatria expandisse seu espaço de intervenção para a quase totalidade dos assuntos humanos parece persistir nos atuais esforços para consolidar uma psiquiatria ampliada que se relaciona com a medicalização do não-patológico", resume Sandra.

Em larga medida, uma disciplina do campo das ciências acadêmicas, que se queria uma solucionadora de problemas humanos, ao tentar se ampliar demasiadamente, acabou por se transformar em uma "criadora" de problemas humanos e, ao contrário das pretensões dos idealizadores da psiquiatria ampliada, em uma amplificadora dos próprios problemas sociais que ela pretendia corrigir.


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