Consulta de idosos: receitas sem nome genérico comprometem renda

Consulta de idosos: receitas sem nome genérico comprometem renda
O gasto médio mensal com remédios, por idosos, compromete aproximadamente um quarto da sua renda, efeito que pode ser minimizado se os médicos incluírem o nome genérico do medicamento nas receitas.
[Imagem: Diocese de Ji-Paraná]

Remédios certos, mas caros

A prescrição de medicamentos para idosos no Brasil tende a seguir os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS). Contudo, 50% dessa faixa da população têm renda pessoal menor que um salário-mínimo, e o gasto médio mensal com remédios compromete, aproximadamente, um quarto dessa renda.

Apesar da prescrição seguir padrões recomendados internacionalmente, são necessários avanços para se atingir melhores índices, especialmente no que se refere ao uso do nome genérico dos medicamentos nas prescrições. A prescrição pelo nome genérico, entre outras vantagens, permite ao paciente a compra de um medicamento de menor custo.

As conclusões são de um estudo de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Marília, no interior de São Paulo, e publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, periódico científico da Fiocruz.

Excesso de consultas médicas

Em Marília, palco da pesquisa, existem 28 Unidades de Saúde da Família, localizadas em áreas onde a população apresenta maior carência socioeconômica. Dos cerca de 218 mil habitantes do município, 84 mil são atendidos pela Estratégia Saúde da Família e, dos atendidos, mais de 14 mil são idosos. A pesquisa utilizou informações dos prontuários médicos de 382 idosos, escolhidos aleatoriamente em quatro unidades selecionadas por sorteio (A, B, C e D, situadas em diferentes regiões da cidade).

As unidades estudadas apresentam diferenças quanto ao perfil socioeconômico da população atendida. Por exemplo, na unidade A apenas 5,8% dos indivíduos têm algum plano de saúde, enquanto este percentual chega a 44,3% na unidade C. Quase todas as pessoas residem em casas de alvenaria, exceto na unidade B, onde 14% vivem em casas de madeira ou material reaproveitado.

De acordo com o artigo, os 382 idosos incluídos no estudo realizaram 1.479 consultas médicas, de setembro de 2005 a agosto de 2006. "O número de consultas por idoso ao ano, importante indicador de saúde para o planejamento das ações em saúde, mostrou que, nas unidades estudadas, a média geral foi de 3,8 consultas/idoso/ano, valor maior que o recomendado pelo Ministério da Saúde que é de 1,5 consultas/habitante/ano", comparam os pesquisadores.

Receitas demais

Observou-se que, na unidade B, em menos de 8% das consultas não foram receitados medicamentos, enquanto em mais de 21% foram prescritas cinco ou mais drogas. Já na unidade A, ocorreu o contrário: os percentuais foram de 21,5% e 3%, respectivamente.

"Embora a OMS proponha como padrão a prescrição de 1,3 a 2,2 medicamentos por consulta médica, tal critério não diferencia as faixas etárias, o que pode torná-lo insuficiente na comparação com os dados da população idosa, visto que ela utiliza com maior freqüência os serviços de saúde e também maior quantidade de medicamentos", explicam os pesquisadores.

Em relação aos antibióticos, a unidade C foi a que mais prescreveu, em cerca de 10% das consultas. Nas outras unidades, este percentual ficou em torno de 5%. "Nas quatro unidades estudadas, o número de antibióticos por prescrição estava em conformidade com a orientação da OMS, que preconiza que seja inferior a 20% do total de medicamentos prescritos ao final da consulta.

Mesmo assim, chama a atenção o fato de, na unidade C, ter sido prescrito o dobro de antibióticos, comparativamente às demais", ressaltam os autores. "Quanto aos medicamentos injetáveis, cuja recomendação é que correspondam a até 10% dos medicamentos prescritos, foi encontrada a freqüência de 3,7% na unidade D e, nas demais, percentuais inferiores a esse", acrescentam.

Receitas sem nome genérico do medicamento

O menor índice de prescrição de medicamentos pelo nome genérico foi encontrado na unidade D, com um percentual de 85,5%. "Tais dados, apesar de não estarem em consonância com a meta de 100%, podem representar um avanço quando comparados com os de outros estudos", ponderam os pesquisadores. Na unidade D, também foi menor o índice de prescrição de medicamentos que constavam na lista selecionada pela Secretaria de Saúde de Marília, com um percentual de 77%. Todas as unidades, porém, estavam dentro do padrão recomendado pela OMS, segundo o qual pelo menos 70% das prescrições devem estar em consonância com a lista de medicamentos padronizados como essenciais pela autoridade de saúde local.

Remédios para o coração

A análise dos prontuários revelou, ainda, que os medicamentos mais receitados foram aqueles do sistema cardiovascular, que representaram, em média, 27,9% das prescrições. Em segundo lugar, vieram os medicamentos de uso sistêmico, com frequências que variaram de 22,3% a 32,1% das prescrições nas quatro unidades estudadas. Na sequência, apareceram os medicamentos que atuam no sistema digestório e no metabolismo, bem como aqueles relacionados ao sistema nervoso.

O foco do estudo nos idosos se justifica porque, segundo estimativas, eles serão mais de 33 milhões brasileiros em 2025. Além disso, idosos são importantes consumidores de medicamentos, sendo que 50% deles têm renda pessoal menor que um salário-mínimo, e o gasto médio mensal com remédios compromete, aproximadamente, um quarto dessa renda. "Considera-se que a maioria utiliza mais de um medicamento periodicamente e, quando hospitalizados, recebem de oito a 15", dizem os autores da pesquisa. Outro dado relevante é que os efeitos colaterais das drogas são 2,5 vezes mais frequentes nos idosos do que em pessoas de outras faixas etárias.


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