Depressão causa reincidência no cigarro após enfarto

Depressão causa reincidência no cigarro após enfarto
Estudo mostra que a depressão contribui com a recaída de pacientes que pararam de fumar depois de hospitalização por doença coronariana.
[Imagem: Ag.Fapesp]

Reincidência por depressão

A depressão é um fator de reincidência para ex-fumantes que foram hospitalizados ao sofrer enfarto do miocárdio ou angina instável. É o que concluiu uma pesquisa, realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

O estudo teve o objetivo de investigar, em pacientes hospitalizados com diagnóstico de síndromes coronárias agudas, se a depressão e outras características são fatores que permitem prever até que ponto os pacientes mantêm a abstinência de nicotina iniciada na hospitalização. A pesquisa avaliou também fatores associados à dependência de nicotina, como o álcool e a cafeína, além da percepção de risco.

Assistência aos fumantes

O estudo teve fundamento em uma pesquisa iniciada há cerca de 10 anos por Ronaldo Ramos Laranjeira, professor titular do Departamento de Psiquiatria da Unifesp. O trabalho teve prosseguimento com a psicóloga Glória Heloise Perez.

"Hoje a literatura até corrobora essas associações entre a dificuldade de parar de fumar e a ocorrência de depressão, ou outros fatores. Mas há dez anos, quando começamos, o assunto era muito pouco comentado", disse Laranjeira.

Segundo ele, o estudo agora conduzido por Glória chama a atenção para a necessidade de se dar mais assistência aos fumantes, principalmente àqueles que não conseguem parar de fumar.

"Não adianta dizer para uma pessoa que sofreu infarto que, agora que ficou doente, precisa parar de fumar. Sem estrutura e tratamento adequados, que envolve também uso de medicamentos, muitos voltam a fumar", alerta Laranjeira.

Questões psicológicas

O elemento "inovador" do trabalho de Glória consistiu em levar em conta questões psicológicas, como a depressão, segundo Laranjeira. "É natural que essas questões de ordem psicológicas também interfiram no processo de interrupção do ato de fumar", disse Glória.

O estudo avaliou 403 pacientes que apresentaram infarto ou angina instável, monitorados por seis meses após o período de internação. Segundo a psicóloga, os pacientes deprimidos tiveram, proporcionalmente, mais chance de recaída do que os não deprimidos hospitalizados.

"Quando um paciente é hospitalizado para o tratamento de uma doença cardíaca como o infarto, por exemplo, ele é proibido de fumar. Isso faz com que uma pessoa entre obrigatoriamente em abstinência", explica.

Proteção no hospital

Os entrevistados ficaram, em média, oito dias hospitalizados e, consequentemente, foram obrigados a parar de fumar nesse período. "Como estavam fora da rotina, vivendo uma doença com outros sintomas, com muito mal-estar e fora do condicionamento do hábito, ficar hospitalizado mais tempo é um fator que protege", diz Perez.

A pesquisa aponta que houve uma abstinência de cerca de 60%, ou seja, menos da metade (40%) dos pacientes voltaram a fumar. "Isso significa que a hospitalização é uma grande oportunidade para as pessoas pararem de fumar", disse a psicóloga.

O tempo da hospitalização foi considerado um fator que influencia a recaída dos pacientes: quanto menor a duração da internação, maior a chance de recaída, uma vez que a "primeira semana é o pior período para resistir à tentação de fumar", segundo a pesquisadora.

Angina e infarto

Ter diagnóstico de angina instável - e não de infarto - foi considerado também um fator "preditivo", segundo o estudo. A gravidade seria um fator "mobilizador" para parar o vício.

"O paciente que tem o diagnóstico de angina instável acha que a doença é menos grave, portanto volta a fumar. O paciente de infarto não. Ele sabe da gravidade da doença, que é potencialmente fatal", afirma Glória.

Relação entre depressão e fumar

Segundo a psicóloga do InCor, a relação entre depressão e o comportamento de fumar é muito complexa. Foram aplicadas duas escalas para avaliar a depressão. Uma para diagnóstico e outra para a intensidade do problema.

"É uma via de mão dupla. Tanto uma pessoa pode fumar para aliviar os sintomas de depressão porque a nicotina tem um efeito antidepressivo, como também alguns estudos mostram que um fumante pode desenvolver depressão", diz.

Comparados com não-fumantes, os fumantes com síndrome coronariana aguda são jovens, mais propensos ao consumo de café e percebem menos o fumo como um fator de risco para doenças cardíacas.

Fumo e álcool

Segundo a pesquisa, homens fumantes são também mais propensos ao consumo de álcool, indicando que usam mais psicoestimulantes do que homens não-fumantes e mulheres que fumam.

Mas, de acordo com Glória, o consumo de álcool não foi um fator preditivo de recaída, mas um fator associado. Entre os homens, os fumantes que tiveram diagnóstico de infarto consomem mais café e álcool. "Os fumantes são mais jovens e ficam doentes mais precocemente do que os não fumantes", acrescentou.


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