Descoberta de áreas da linguagem no cérebro vai ajudar na preparação de cirurgias

Área do cérebro responsável pela linguagem

Uma pesquisa feita em pacientes com epilepsia refratária de lobo temporal buscou identificar as regiões do cérebro responsáveis pela linguagem, informação com importantes implicações na preparação de procedimentos cirúrgicos.

O estudo constatou que 92,3% dos pacientes analisados apresentaram linguagem no hemisfério esquerdo do cérebro, enquanto em 7,7% foi observada linguagem tanto em regiões cerebrais do hemisfério esquerdo como do direito.

Os valores são semelhantes aos verificados por estudos anteriores para pessoas saudáveis. Segundo os autores, esses resultados indicam que a epilepsia não "modificou" essas regiões.

Epilepsia refratária

A epilepsia refratária é aquela de difícil controle com medicamentos e que necessita de intervenção cirúrgica. A epilepsia é a conseqüência de funções cerebrais alteradas e pode ter causas variadas e se manifestar de diferentes formas, dependendo da sua localização no cérebro.

O trabalho foi feito por um grupo de pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), da Universidade Harvard, Estados Unidos, e da Universidade Nova de Lisboa (UNL), em Portugal, com pacientes do Programa de Cirurgia de Epilepsia do Hospital São Lucas da PUC-RS. Os resultados foram publicados no Journal of Epilepsy and Clinical Neurophysiology.

Preparação para cirurgia cerebral

"Antes de uma cirurgia cerebral é de extrema importância identificar as regiões responsáveis pela linguagem para guiar o neurocirurgião e evitar que o paciente tenha alguma alteração de linguagem após a intervenção cirúrgica", disse Denise Ren da Fontoura, doutoranda em ciências da linguagem e da comunicação na área de psicolingüística da UNL, uma das autoras do estudo, à Agência FAPESP.

"O mapeamento dessas regiões cerebrais é importante para conhecer como está o aspecto processual da linguagem nesses pacientes. Estabelecer correlação entre determinadas lesões e funções cerebrais é uma contribuição valiosa de estudos como esse", disse Li Li Min, professor do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um dos coordenadores do programa Cooperação Interinstitucional de Apoio a Pesquisas sobre o Cérebro (CInAPCe), da FAPESP.

Ressonância magnética funcional

Segundo Denise, o estudo procurou identificar as regiões cerebrais responsáveis pelas funções de linguagem por meio de ressonância magnética funcional (RMf).

"Foram avaliados 13 pacientes com idades entre 17 e 48 anos e que apresentavam o diagnóstico médico de epilepsia temporal refratária. Os participantes foram submetidos a RMf, a fim de verificar a dominância cerebral da linguagem e as regiões de ativação cerebral", disse.

Denise explica que a RMf apresenta vantagens por se tratar de um exame não-invasivo, que não necessita de drogas, não apresenta morbidade ao paciente e não exige internação hospitalar, além de poder ser repetido várias vezes.

"Mas o método apresenta algumas limitações, como a impossibilidade de realização em pacientes portadores de implantes dentários, marca-passo cardíaco e objetos metálicos intracranianos. Além, disso, necessita da cooperação do paciente para execução correta das tarefas solicitadas", explicou.

Áreas funcionais da linguagem

"Em termos de conhecimento científico é importante acumular a máxima quantidade de dados sobre as áreas funcionais da linguagem. É importante ter experiências com métodos não-invasivos como a RMf. Com o paradigma de ativação, consegue-se dissecar diferentes partes do processo de geração de linguagem", disse Li Min.

Para o experimento de tarefa específica de linguagem, o procedimento empregado por Denise e colegas foi a geração de verbos. Ao ouvir um palavra como "lápis", por exemplo, o paciente associaria a "escrever" e pensaria na utilidade da palavra proposta, sem verbalizar e sem realizar qualquer movimento facial ou movimentos de língua, permanecendo em silêncio e com os olhos fechados.

"O experimento de geração de verbos foi escolhido, pois, além de ser o mais utilizado atualmente em estudos, investiga não apenas a expressão da linguagem como também a compreensão da linguagem oral. No momento que o paciente ouve uma palavra e tem que associar com outra, ele necessita compreender a palavra escutada e ao mesmo tempo acessar no cérebro uma nova palavra para falar, ou pensar", disse Denise.

Denise conta que a pesquisa pode ter continuidade com o objetivo de verificar as regiões de linguagem em outros pacientes com epilepsia refratária, não apenas na região temporal do cérebro, uma vez que a região frontal também tem papel fundamental na função de linguagem.

Plasticidade cerebral

Segundo ela, também seria interessante obter mais informações sobre aqueles casos cuja epilepsia iniciou-se muito cedo, antes dos 5 anos de idade, em comparação com casos de epilepsia iniciada na idade adulta.

"Sabe-se que quanto mais cedo ocorrem as lesões cerebrais na infância, maiores são as chances de recuperação das funções afetadas devido a maior plasticidade cerebral nessa etapa da vida. Alguns autores apontam que alterações afetando o hemisfério esquerdo levam a uma reconstituição inter-hemisférica das funções de linguagem para o hemisfério direito, sendo que, após os 5 anos de idade, quando a linguagem se torna gradualmente lateralizada, a reorganização contralateral da linguagem após lesão cerebral ocorre com menor freqüência", disse a pesquisadora.


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