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21/02/2013

Especialistas alertam sobre venda indiscriminada de anticoncepcionais

Com informações da Agência Brasil

Riscos dos anticoncepcionais

A venda indiscriminada de hormônios femininos, o que inclui os anticoncepcionais, pode agravar os riscos à saúde das mulheres, alertam especialistas.

Ginecologistas lembram que o medicamento é vendido sem a exigência de receita médica em vários países, como os Estados Unidos, e cardiologistas alertam que a automedicação sem uma avaliação de predisposição da mulher pode acarretar problemas como a trombose e a embolia.

O angiologista e cirurgião vascular Calógero Presti, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, lembra que os riscos de hormônios usados como contraceptivos, para o tratamento de problemas como acne ou para reposição hormonal, por exemplo, são conhecidos há muito tempo e estão nas bulas dos remédios.

"Quando uma menina começa a menstruar, ela pode ir a uma farmácia e comprar o anticoncepcional. Isso é um problema sério. A rigor, esse tipo de medicamento tem que ser ministrado com segurança pelo ginecologista. Mas, em geral, elas procuram as amigas e os farmacêuticos em busca de orientações sobre qual anticoncepcional comprar", disse o médico.

Avaliação de riscos

Na opinião de Presti, muitos problemas poderiam ser evitados se as mulheres se submetessem a análises médicas de risco, que podem identificar predisposições por histórico das doenças na família ou por obesidade, sedentarismo e tabagismo.

Pelas estatísticas médicas, o risco de formação de trombose feminina, considerando a população geral, não ultrapassa cinco casos em cada 10 mil mulheres. Quando a mulher começa a tomar pílula, a proporção passa a ser de nove casos para cada 10 mil mulheres.

"O hormônio condiciona o maior risco. Para quem toma progesterona e outros hormônios, aumentam os fatores de coagulação", disse Presti, ao alertar que os cuidados prévios podem ser a única solução para o problema. "A trombose instala-se agudamente, ou seja, repentinamente. "É como um infarto do miocárdio. Ela não avisa que vai ocorrer. Você só sabe depois dos sintomas instalados e, muitas vezes, nem fica sabendo. A prevenção é muito complicada".

O angiologista não é contrário ao uso das pílulas, mesmo diante da morte de quatro mulheres e da ocorrência de 125 casos de trombose venosa entre pacientes que utilizavam o Diane 35.

Segundo ele, o medicamento se transformou em uma necessidade da mulher moderna, que decide evitar gravidez ou tratar outros problemas - apenas, ele deve ser utilizado com responsabilidade.

"Na gestante há grande aumento de hormônios femininos, há alteração endocrinológica que vai preparar a mulher para o parto. E no caso da gestação, o risco de trombose, para se ter um exemplo, é muito maior. É de 30 casos para cada 10 mil gestantes. A trombose pode ocorrer em mulheres que tomam ou não a pílula", avaliou.

Só para acne

O angiologista não acredita que o Diane 35 tenha características diferentes de outros hormônios, mas lembra que o medicamento não tem autorização para ser vendido como contraceptivo.

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o remédio está registrado no Brasil desde 2002 pelo Laboratório Bayer S.A. para o tratamento de distúrbios andrógeno-dependentes na mulher, como a acne, principalmente nas formas pronunciadas e naquelas acompanhadas de seborreia, inflamações ou formação de nódulos, e para casos leves de hirsutismo (crescimento excessivo de pelos na mulher) e síndrome de ovários policísticos.

O registro médico dos casos de trombose desenvolvidos por mulheres que usam hormônios não é obrigatório. A falta da exigência talvez explique a ausência de ocorrências no Brasil.

"Até o momento, não houve geração de sinal de risco sanitário no banco de dados do sistema de notificação da agência", informou a Anvisa, acrescentando que a bula do medicamento "já tem as informações de que o mesmo não deve ser utilizado na presença ou histórico de processos trombóticos/tromboembólicos arteriais ou venosos, como por exemplo trombose venosa profunda, embolia pulmonar, infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral, bem como na presença ou história de sintomas e/ou sinais de trombose , como por exemplo episódio isquêmico transitório, angina pectoris".

Uso racional

A Anvisa comprometeu-se a monitorar os casos e informou que só pode aprovar medicamentos para finalidades comprovadas em estudos apresentados para o registro. Destacou que o sistema de notificação é aberto a qualquer profissional de saúde e aos próprios usuários. "A solução está em uma conscientização dos profissionais sobre a importância de notificar esses eventos, sejam eles quais forem", destacou a assessoria do órgão regulador.

Em relação à venda do medicamento, a Anvisa explicou que não há um comércio indiscriminado. "Anticoncepcionais não são medicamentos de venda livre. O problema passa por outra esfera, que é o uso racional", destacou.

A agência abriu edital recentemente para montar uma força-tarefa destinada a discutir soluções para o problema. A intenção é formar grupos que sensibilizem farmacêuticos, médicos e usuários sobre a exigência da receita médica para a compra de qualquer medicamento de tarja vermelha, como é o caso dos anticoncepcionais.


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