Por que estudos científicos chegam a conclusões diferentes?

"Verdade científica"

Ainda é comum ouvir expressões do tipo "Está cientificamente comprovado", "A ciência prova", "evidências científicas" e muitas outras variações do mesmo tipo.

Na verdade, há uma incerteza inerente a todos os estudos científicos que desautoriza o uso de expressões do tipo "prova científica" ou "evidência científica", no sentido de uma decisão cabal e definitiva sobre uma determinada questão.

Isto porque a ciência não se propõe a chegar a uma verdade final e inquestionável. Na verdade, o que os cientistas coletam pode ser melhor descrito como "indícios", e não evidências.

Os cientistas "de primeira linha" sabem bem disso. Por exemplo, na semana passada, um artigo na revista Nature discutiu um eventual "ataque de desinformação" que estaria sendo gerado pela divulgação de resultados de estudos científicos na imprensa como se eles tivessem uma certeza que não têm - os autores culpam o que eles chamam de "fãs da ciência" por esse excesso de otimismo e pela geração de expectativas que, em última instância, vão minar a credibilidade da própria ciência.

Como usar a ciência

Por outro lado, há um sentido de utilitarismo nas pesquisas científicas, e a maioria das pessoas pensa na ciência como um meio para chegar a melhores condições de vida, sobretudo em termos de saúde.

Assim, os pesquisadores precisam apresentar seus resultados e encaminhá-los para usufruto da sociedade. Mas como fazer isso sem dogmatismo, sem tentar vender para as pessoas a ideia de "verdade final" pouco afeita à autêntica prática científica?

É fácil testemunhar a dificuldade dos cientistas ao acompanhar notícias sobre pesquisas e estudos - sobre saúde, por exemplo - que, analisando os mesmos fenômenos, chegam a resultados diferentes e, não raramente, a conclusões conflitantes.

O problema é que cada estudo tem suas próprias características e limitações, com relação à abordagem adotada pelo pesquisador, às técnicas e métodos utilizados no estudo ou pesquisa, à amostra da população estudada, à interpretação dos resultados etc. - sem contar variações nos dados para os quais não se encontra explicações.

Mas calar-se e deixar de divulgar os resultados, como alguns propõem, não é a saída para um empreendimento social como é a ciência. Afinal, é necessário dizer às pessoas o que parece funcionar e o que parece não funcionar - eventualmente reforçando o "parece", para evitar as pretensões de certeza dos "fãs da ciência". Isso sem contar que é necessário divulgar aos médicos a melhor forma para identificar ou tratar cada doença, lembrando que poucos médicos são cientistas - a maioria deles é de "aplicadores de ciência".

Revisão sistemática e metanálise

É fato que a divulgação de estudos muito pequenos e pouco representativos pode fazer mais mal do que bem em relação às expectativas que o público tem da ciência.

Mas há técnicas para lidar com isso, algumas das quais estão sendo objeto de um curso anunciado há poucos dias pela Faculdade de Medicina da USP.

O curso pretende capacitar pesquisadores brasileiros para usar a revisão sistemática e a metanálise, duas técnicas que permitem juntar todas as pesquisas sobre um determinado tema, ajustá-las para uma determinada metodologia e verificar quais são os "melhores resultados" ou, pelo menos, os resultados mais relevantes dado o conhecimento atual.

A revisão sistemática é uma técnica que vai além da revisão bibliográfica, o método mais comum em que os pesquisadores comparam criticamente a literatura científica sobre um determinado tema. O objetivo da revisão sistemática é obter imparcialidade, fazendo com que a avaliação não dependa de hipóteses a priori feitas pelos pesquisadores.

Já a metanálise é um método estatístico que integra os resultados de diferentes pesquisas em uma única estimativa de resultado. "Dessa forma, é possível estimar uma magnitude de efeito mais confiável e precisa", explica o Dr. João Amadera, um dos idealizadores do curso.

Capacitação de pesquisadores

Segundo o Dr. Amadera, a ideia do curso é justamente disseminar as ferramentas e contestar "verdades" que são impostas por especialistas, muitas vezes com conflitos de interesse para dizer, por exemplo, que um medicamento ou terapia é mais eficaz do que o outro, quando não há fundamentação confiável que permita afirmar isso.

Dessa forma, por intermédio da realização de uma revisão sistemática, um profissional tem ferramentas para criticar e formar sua própria opinião em relação à conduta clínica mais adequada - observe a diferença entre "opinião" e o tradicional "comprovado pela ciência".

Conhecendo e utilizando estas ferramentas, as universidades podem melhorar o processo de divulgação e popularização da ciência, aplicando critérios em seus próprios sistemas de divulgação que evitem a geração de manchetes espalhafatosas na mídia com base em estudos cujo poder conclusivo está muito longe do que se poderia chamar de "descoberta científica".


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