Estudos sobre câncer no Brasil ganham centro de nível internacional

Estudos sobre câncer no Brasil

O novo Centro Internacional de Pesquisa e Ensino (Cipe) em Oncologia do Hospital A.C. Camargo deverá mudar os paradigmas de pesquisa na instituição e dará novo fôlego para os estudos sobre câncer no Brasil, de acordo com o diretor da Pós-Graduação do hospital, Fernando Soares.

A inauguração oficial do novo centro será hoje (5/8), integrada à programação do 3º Encontro de Patologia Investigativa e da 13ª Jornada Internacional de Patologia do Hospital A.C. Camargo. Os eventos são coordenados por Soares.

"O Cipe, para nós, é um grande sonho realizado. Somos um hospital de uma fundação privada com uma área de pesquisa em constante expansão. Com um investimento dessas dimensões, nossos estudantes agora têm à disposição um lugar adequado com todas as plataformas necessárias para a realização de pesquisa de ponta", disse à Agência FAPESP.

Pós-graduação privada

Segundo Soares, o A.C. Camargo é o único hospital privado do Brasil com cursos de pós-graduação stricto sensu reconhecidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Mas o novo centro representa uma grande mudança completa na pesquisa da instituição.

"Tínhamos laboratórios de pequenas dimensões fazendo grande esforço para realizar pesquisa. Esses laboratórios foram redesenhados e transferidos para o Cipe. Agora, temos um centro com core facilities, plataformas bem desenvolvidas e organizadas e instalações excelentes para pelo menos 100 estudantes. Será sem dúvida um grande avanço para a nossa pesquisa", afirmou.

No modelo antigo, cada laboratório dedicado a um tema pontual era dirigido por um professor. O novo centro, ao contrário, atenderá às demandas de todos os pesquisadores e professores, além do corpo clínico do hospital.

O Cipe terá suas pesquisas lideradas por dez cientistas e disponibilizará espaço para uma centena de estudantes, dos cerca de 180 alunos da pós-graduação do hospital. As atividades serão integradas às do Centro Antonio Prudente para Pesquisa e Tratamento do Câncer, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP.

"A concepção do Cipe, com plataformas e ambientes comuns, naturalmente criará uma sinergia entre os pesquisadores, com mais interação e troca de ideias. O centro é um grande avanço para a nossa pós-graduação, assim como para o Cepid", afirmou.

O Cipe será dirigido por Ricardo Renzo Brentani, presidente da Fundação Antônio Prudente, mantenedora do Hospital A.C.Camargo, e diretor-presidente do Conselho Técnico Administrativo da FAPESP.

"Com recursos do próprio hospital, o Cipe recebeu investimentos de cerca de R$ 14 milhões para sua infraestrutura física. Esse valor não inclui os investimentos em plataformas e equipamentos, que foram financiados por agências de fomento", explicou Soares.

Patologia

A programação do 3º Encontro de Patologia Investigativa e a 13ª Jornada Internacional de Patologia - que teve início na quarta-feira (4/8), mescla a vertente investigativa da patologia à área diagnóstica e aplicada.

"O objetivo é apresentar os principais avanços da pesquisa básica com foco em suas aplicações. Portanto, trata-se de um evento eminentemente translacional", disse.

Segundo Soares, uma das novidades da edição de 2010 é uma exposição de trabalhos científicos, integrada à programação do evento por sugestão de assessores da FAPESP. "Mais de 60 trabalhos de alto nível foram julgados por uma comissão ad hoc e estão sendo apresentados durante os eventos", explicou.

Entre os 11 convidados internacionais que participam do evento, destaca-se Harald zur Hausen, do Centro de Pesquisa em Câncer de Heidelberg, na Alemanha. Em 2008, Hausen foi agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina por identificar a relação entre o papilomavírus (HPV) e os tumores como o de colo do útero.

"É importante observar que o professor Hausen não foi convidado apenas por ter sido laureado com um Nobel, mas principalmente porque a contribuição científica que lhe rendeu o prêmio teve relação com o câncer do colo de útero, que é uma doença altamente prevalente no nosso Brasil. Ele foi convidado especificamente pela importância que seu trabalho teve para a mulher brasileira", disse Soares.

Terapia celular

O evento foi aberto com a conferência "Estratégias com base em terapia celular para reparo de isquemia miocárdica", apresentada por José Eduardo Krieger, professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da FMUSP.

Krieger descreveu os novos tipos de abordagem na pesquisa relacionada aos tecidos do miocárdio lesados após infartos. Segundo ele, ao contrário de outros músculos do corpo, o miocárdio tem pouca capacidade regenerativa.

"A substituição do tecido muscular no coração ainda é um desafio. Há um grande esforço para estudar o uso de células como vetor para essa reconstrução. Uma possibilidade é o uso dos 'curingas' biológicos, como as células-tronco embrionárias, ou as células-tronco adultas reprogramadas", disse.

Engenharia de tecidos

Segundo Krieger, a engenharia de tecidos tem avançado há algum tempo e, agora, os pesquisadores estão procurando associá-la às abordagens que usam células como vetor. "Trata-se de um problema sério. A mortalidade do paciente com insuficiência cardíaca em fase avançada supera até mesmo a dos pacientes com câncer", afirmou.

Para intervenções em situações agudas - horas, dias ou semanas após o infarto - os médicos procuram estimular a formação de novos vasos e inibir a morte celular, além de prevenir a expansão cardíaca e limitar a área de necrose. Em um segundo momento, alguns meses após o evento, além de estimular a angiogênese as alternativas são substituir os cardiomiócitos e reconstruir o músculo.

"Em 2001, um artigo na revista Nature demonstrou que a simples injeção de células-tronco provocava melhora nos pacientes. Foi uma revolução e o conceito passou a ser explorado. Mas, dois anos depois, outro artigo na mesma revista mostrava que aquela abordagem era um tanto inocente. De fato, a injeção de células-tronco provocava melhora, mas não pelas razões que se imaginava. Isto é, não havia de fato criação de novos vasos", disse Krieger.

Atualmente, os pesquisadores estão procurando entender o mecanismo pelo qual a injeção de células-tronco melhora a situação do paciente. "Passamos para um novo patamar terapêutico. Temos muitos desafios pela frente: definir os tipos celulares mais adequados, estabelecer o número de células necessário e identificar rotas de administração e janelas terapêuticas, por exemplo", disse.


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