Brasileiros desenvolvem fármacos para doenças negligenciadas

Doenças tropicais negligenciadas

Nas últimas décadas, cerca de 1.400 novas moléculas foram autorizadas para testes em humanos para o tratamento de doenças em geral.

Desse total, apenas 16 foram direcionadas para o tratamento de doenças tropicais negligenciadas (DTN).

Doenças tropicais negligenciadas são determinados males infecciosos que se desenvolvem em climas quentes e úmidos e que afetam mais de 1 bilhão de pessoas pobres, principalmente na África, Sudeste Asiático, América Latina e Caribe, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Moléculas alvo

Pesquisadores brasileiros estão tentando cobrir a lacuna desses males esquecidos.

O objetivo é descobrir moléculas candidatas a novos fármacos para essas doenças ignoradas pelas indústrias farmacêuticas e que vêm sendo tratadas com medicamentos muito antigos - que apresentam problemas como baixa eficácia e elevada toxicidade.

Os pesquisadores brasileiros estão realizando estudos para identificar receptores biológicos que possam servir como alvos para os quais os novos medicamentos possam ser dirigidos.

Diferentemente do que se fazia até meados da década de 1960 para desenvolver um novo medicamento - a obtenção primeiramente de moléculas para então testá-las em um modelo animal - atualmente se adota o processo inverso.

"Hoje, procura-se descobrir primeiramente o receptor biológico alvo e, em seguida, sua estrutura, para depois tentar bloqueá-lo e, finalmente, procurar sintetizar e buscar uma molécula na natureza", disse Glaucius Oliva, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e professor do Instituto de Física de São Carlos, da USP.

Físicos que descobrem remédios

Oliva e sua equipe desvendaram a estrutura de uma enzima essencial para o Trypanosoma cruzi, o agente causador da doença de Chagas, que pode ser receptor-alvo para novos medicamentos para o tratamento da doença.

Utilizando a técnica de difração de raios X, os pesquisadores revelaram a estrutura cristalográfica da gliceraldeído 3-fosfato desidrogenase (GAPDH), uma enzima que desempenha papel fundamental no metabolismo de glicose do parasita.

A descoberta abriu a possibilidade para o planejamento de novos medicamentos para o tratamento da doença baseados na estrutura desse receptor biológico alvo.

"Por meio de técnicas físicas para estudar a estrutura de moléculas, como raio X, radiação síncrotron e ressonância magnética nuclear, entre diversas outras, nós, físicos, podemos contribuir para o desenvolvimento de novos fármacos", disse Oliva.

Base de dados de moléculas

Segundo Oliva, os dois principais critérios utilizados para a busca de uma molécula que se encaixe em um novo receptor biológico alvo é a complementaridade de suas formas e propriedades químicas para que o princípio ativo tenha a ação farmacológica desejada no organismo humano.

Para isso, os pesquisadores brasileiros criaram uma base de dados que reúne cerca de 1,4 mil compostos, relacionando-os com suas respectivas propriedades.

"A base de dados apresenta mais de 4 mil medidas dos compostos, como absorção intestinal e biodisponibilidade em humanos, e é uma ferramenta bastante interessante de busca por moléculas. Basta inserir o nome de uma molécula para ver sua forma de representação molecular e ação farmacológica", disse Adriano Andricopulo, professor do Instituto de Física de São Carlos da USP e coordenador do laboratório.

Segundo ele, recentemente foi disponibilizada na base de dados uma ferramenta de procura por fragmento molecular para o planejamento de novas moléculas que permite estudar o papel deles em diferentes fármacos lançados no mercado.

Os pesquisadores desenvolvem uma nova ferramenta para possibilitar a triagem virtual de moléculas com maior potencial para serem testadas experimentalmente em laboratório em um receptor biológico alvo.

"Por meio da nova ferramenta, será possível selecionar moléculas que já estão disponíveis fisicamente, realizar testes de triagem biológica em laboratório em um alvo bem definido", disse Andricopulo.


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