Aumenta índice de câncer de boca e garganta entre jovens

Perfil de idade

Até pouco tempo atrás, os tumores de boca e de garganta eram tipicamente associados a pacientes com mais de 50 anos e histórico de consumo pesado de álcool e tabaco.

Mas, nos últimos anos, estudos epidemiológicos têm apontado uma emergência de casos em pessoas jovens que nunca fumaram ou beberam - a maioria deles associada à infecção pelo papiloma vírus humano (HPV).

A mudança no perfil dos afetados por esse tipo de câncer tem grandes implicações nos programas de prevenção, detecção precoce e também no tratamento da doença.

Doença menos agressiva

"Levantamentos anteriores feitos no Brasil apontavam uma prevalência de infecção pelo HPV menor que 2% nos pacientes com câncer de cabeça e pescoço. Mas um estudo nosso publicado em 2012 mostra que em pacientes jovens com tumores de boca a prevalência é de 32%. Isso é bem alto", disse o médico Luiz Paulo Kowalski, do Hospital A.C. Camargo.

Entre os mais velhos, o índice de infecção pelo HPV foi de 8%.

"Nos dois grupos, o estágio da doença era parecido, a localização do tumor era semelhante e, ainda assim, os pacientes jovens HPV positivos tinham taxa de sobrevida melhores que os demais", contou Kowalski.

Esse achado reforça dados de estudos anteriores que apontam um melhor prognóstico para pacientes HPV positivo. "Parece ser um tumor diferente, com comportamento mais localizado e menos agressivo. Em geral, os pacientes respondem melhor ao tratamento", disse.

Comportamento sexual

Agora trabalhando para identificar marcadores de resposta ao tratamento, os pesquisadores encontraram um dado interessante: enquanto 78% dos pacientes da cidade de São Paulo são positivos para a presença do vírus, todos os voluntários de Barretos, no interior do estado, foram negativos.

"Provavelmente essa diferença se deve ao fato de que na capital as pessoas aderiram mais às campanhas antifumo e hoje bebem menos do que antigamente. Já no interior, os hábitos mudaram menos. Além disso, o comportamento sexual na capital também está mais diferente e isso é um dos fatores ao qual se atribui o aumento da ocorrência dos casos de câncer associados ao HPV", explicou Kowalski.

"A discrepância nos índices de infecção pelo vírus, mais uma vez, se refletiu nos resultados terapêuticos alcançados em cada grupo negativo, e a resposta terapêutica é muito pior", disse.

Cigarro, álcool e HPV

Há 20 anos, o panorama para um jovem com câncer de cabeça e pescoço era muito ruim. "Em geral, eram pessoas que começaram a fumar e beber muito cedo. Tinham más condições nutricionais, um estado físico muito comprometido e tumores muito agressivos", contou Kowalski.

Hoje, por outro lado, um paciente jovem, HPV positivo, sem histórico de consumo pesado de álcool e cigarro tem grandes chances de sobreviver ao tratamento e de voltar à vida normal.

Para Kowalski, essa mudança de paradigma exige a revisão dos programas de prevenção e detecção precoce da doença, muito focados em cuidados com a boca e em pacientes fumantes e alcoólicos. "Agora temos de nos preocupar com todas as pessoas. Mesmo quem não fuma e não bebe pode estar em risco", disse.

Segundo o médico, embora existam mais de 200 variações de HPV, a maioria dos casos de câncer de orofaringe está associada aos tipos 16 e 18, para os quais existe vacina.


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