Infecção intestinal pode predispor a doenças metabólicas

Infecção intestinal pode predispor a doenças metabólicas
A imagem ilustra o escape das células dendríticas, em verde, para o tecido adiposo mesentérico pela parede do vaso linfático, em vermelho.
[Imagem: Denise Morais da Fonseca]

Cicatriz imunológica

Poderia um único episódio de infecção intestinal tornar uma pessoa propensa a desenvolver distúrbios cardiovasculares, obesidade, diabetes ou alergias alimentares e doença inflamatória intestinal?

"Experimentos com camundongos sugerem que a infecção pode deixar como sequela uma espécie de cicatriz imunológica, ou seja, uma alteração permanente nas vias de comunicação entre o intestino e o sistema imune. Agora estamos investigando como isso se relaciona com o desenvolvimento de doenças metabólicas," conta a pesquisadora Denise Morais da Fonseca, da Universidade de São Paulo (USP).

Só agora os pesquisadores começam a se dar conta dessa sequela inquietante porque dificilmente se faz um acompanhamento a longo prazo das infecções intestinais.

"Esse tipo de infecção gastrointestinal é comum e, na maioria dos casos, benigno e autolimitado. Por essa razão, as pessoas acometidas não costumam buscar um acompanhamento médico de longo prazo. Não se sabia se haveria alguma sequela para o organismo", disse Denise.

Mesentério

Após acompanhar a recuperação dos camundongos por dois anos (o animal vive, em média, três anos), os pesquisadores concluíram que pode haver consequências permanentes.

Os resultados foram considerados tão importantes que o artigo, que foi publicado na revista Cell, rendeu comentários nas revistas Nature, Science, Nature Reviews Immunology, entre outras.

Duas semanas após serem infectados, todos os camundongos já haviam conseguido eliminar as bactérias de seu organismo. Porém, quase 80% deles passaram por um processo de remodelamento do mesentério, a camada de tecido conjuntivo que prende as alças intestinais à parede interna da cavidade abdominal.

"No interior do mesentério, há uma série de estruturas do sistema imune, como linfonodos e vasos linfáticos, que funcionam como vias de tráfego para as células responsáveis por fazer a vigilância do intestino e identificar alterações teciduais. Essas estruturas ficam danificadas após a infecção e não voltam ao normal sem algum tipo de intervenção", contou Denise.

Vazamento dos lipídeos

Segundo a pesquisadora, o dano aos vasos linfáticos que passam pelo mesentério induz um aumento de permeabilidade, permitindo o escape tanto dos lipídeos oriundos da dieta como das células do sistema imune, que acabam não chegando ao local aonde deveriam.

Atualmente, o grupo investiga a hipótese de que o vazamento dos lipídeos oriundos da dieta para a cavidade peritoneal - em função do aumento de permeabilidade dos vasos linfáticos - seja um dos fatores principais por trás dos transtornos metabólicos observados nesses casos.

"Aparentemente, não são todos os patógenos que induzem esse tipo de remodelamento. E também esse processo não ocorre em todos os indivíduos acometidos por infecção gastrointestinal. Ainda não entendemos quais são os fatores determinantes e é algo que pretendemos investigar", concluiu Denise.


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