Médicos e AIDS: pesquisa aponta problemas sérios

Receita de antirretrovirais

Entre os anos de 2009 e 2010, o pesquisador Mário Scheffer, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), fez um levantamento do perfil de médicos que costumam receitar antirretrovirais (ARVs) para o tratamento da Aids no Estado de São Paulo.

Jornadas extenuantes, capacitação aquém do ideal, alta rotatividade de médicos para um mesmo paciente e má distribuição de profissionais pelo estado foram alguns dos problemas identificados no trabalho de pós-doutorado de Scheffer, que integrou um projeto coordenado por Euclides Ayres de Castilho, professor titular da FMUSP.

"Trata-se de um estudo inédito e que fornecerá informações que ajudarão o Programa Nacional de DST/Aids, conduzido pelo Ministério da Saúde, já que São Paulo concentra quase a metade dos médicos prescritores de antirretrovirais do Brasil", disse Castilho à Agência FAPESP.

Falta de especialização

Em seu trabalho, Scheffer cruzou dados do Sistema de Controle Logístico de Medicamentos do Ministério da Saúde, do Banco de Dados do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, do Programa Estadual de DST/Aids da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e do Sistema da Comissão Nacional de Residência Médica. Foram reunidos registros de 149 das 167 unidades dispensadoras de medicamentos no estado.

Dos 3.178 médicos que receitaram ARVs durante os 20 meses analisados, Scheffer identificou 2.361 que prescreveram de maneira habitual esse tipo de medicamento a pacientes com HIV.

Mais da metade (53,1%) não tinha ou não havia concluído residência médica, 44,7% não possuíam título de especialista e apenas cerca de 30% do grupo era especialista em infectologia.

"Essa é uma realidade de toda a medicina: mesmo atuando em uma especialidade, a maioria dos médicos não tem especialização, pois não há legislação que obrigue o médico a se especializar", disse Scheffer.

No Brasil, para obter o título de especialista, o médico ou participa de um programa de residência médica ou realiza uma prova aplicada pela sociedade médica da especialidade. No caso do tratamento da Aids, Scheffer apurou que a maioria dos profissionais começa a atuar após os seis anos de faculdade sem procurar se especializar.

Qualidade dos médicos

Segundo o pesquisador, a literatura internacional aponta que a qualidade na atuação do médico decorre da experiência e da formação. "O melhor dos mundos para um paciente de Aids é ser atendido por um médico que já tenha acompanhado mais de 20 pacientes com a doença e que tenha alguma especialização em infectologia", afirmou.

Nessa situação, considerada ideal pela literatura, se enquadraram 19,5% dos médicos da pesquisa. Mesmo sendo minoria, o grupo tratou de 65% dos pacientes. Na ponta oposta estiveram 16% dos pacientes, atendidos por 8,2% dos médicos que não tinham experiência de atendimento de 20 ou mais pacientes com HIV nem especialização. "Isso é uma boa notícia, pois a maioria dos pacientes está nas mãos dos médicos mais capacitados", disse Scheffer.

O cientista ressalta que isso não quer dizer que somente infectologistas sejam indicados para tal tratamento. Um pediatra com ampla experiência de atendimento de crianças com HIV ou um ginecologista que só trate de mulheres com Aids são exemplos de profissionais também recomendados.

Falta de capacitação

Uma amostra representativa de 300 médicos foi convidada para responder a um questionário por meio do qual foram coletados opiniões e dados importantes. A falta de capacitação permanente foi um dos problemas encontrados. Desse grupo, 62% afirmaram que não fizeram curso algum de capacitação ou reciclagem de conhecimentos nos últimos dois anos.

"Esse é um dado preocupante, pois a produção científica na área médica é muito veloz e os procedimentos adotados por médicos há três anos não serão necessariamente os mesmos de hoje", apontou Scheffer. Essa parte da pesquisa teve apoio do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

Parte da explicação para a falta de estudos complementares desses médicos pode estar na jornada excessiva. A média semanal de trabalho apurada foi de 57 horas, sendo que 26% do grupo cumpriu mais de 60 horas de trabalho por semana e 14% declararam ter quatro ou mais trabalhos ou empregos - na média, foram 2,3 empregos por profissional.

"Outro problema que atrapalha muito o tratamento é a alta rotatividade dos médicos. Cerca de 40% dos pacientes foram atendidos por mais de um médico e 15,8% foram tratados por três ou mais médicos, o que prejudica a terapia, pois impossibilita que o profissional acompanhe o paciente", disse Scheffer.

Segundo ele, isso se dá por causa dos sistemas de atendimento público municipal, os quais muitas vezes fazem contratos temporários com os profissionais e não os vinculam às unidades de saúde.

A pesquisa também indicou que os médicos que mais atuam no tratamento de HIV/Aids não estão nos locais de maior incidência da doença no Estado de São Paulo. Um exemplo está na região de Franca, que apresenta a maior incidência de casos de Aids no estado (23,1 casos por 100 mil habitantes), mas tem um dos menores números de médicos prescritores de ARV: 1,4 por 100 mil habitantes.

Médicos e indústria farmacêutica

O levantamento também avaliou o relacionamento dos profissionais com a indústria farmacêutica.

Seis em cada dez médicos (60%) ouvidos afirmaram ter recebido produtos, benefícios ou pagamentos vindos de grupos farmacêuticos, como material informativo (54% dos médicos entrevistados), custeio de cursos (40%), almoços ou jantares (27%) e viagens para congressos nacionais (17%) e internacionais (7%).

Mesmo tendo distribuição gratuita e centralizada no Brasil, os antirretrovirais da Aids podem estar sofrendo dessa influência da indústria farmacêutica, segundo Scheffer. "Cerca de dez ARVs da lista do Ministério da Saúde são de grandes empresas farmacêuticas e essa relação da indústria com os médicos pode explicar por que um medicamento é mais prescrito do que outro", disse.

Ainda assim, 40% dos médicos afirmaram que essa relação não influencia em nada a prescrição de ARVs, apesar de 50% dizerem que ela influencia um pouco e 10% considerarem que as benesses dos laboratórios exercem muita influência na hora de prescrever os medicamentos.

O trabalho também analisou opiniões dos médicos sobre aspectos mais gerais do tratamento de HIV/Aids. Quase a totalidade do grupo ouvido (99%) disse confiar nos antirretrovirais genéricos distribuídos pelos SUS e 92% apoiam a quebra de patente de remédios ou o licenciamento compulsório, em caso de necessidade. "Esses resultados são bons, pois é importante que os médicos acreditem nas políticas de saúde das quais eles fazem parte", salientou Scheffer.

No entanto, o pesquisador considera preocupante o fato de 61% dos médicos entrevistados apoiarem a criminalização de pessoas que, mesmo sabendo ter o vírus HIV, infectam o parceiro. "É uma visão absurda e conservadora. A proteção contra o vírus é uma questão compartilhada, culpar o portador só leva à discriminação, em nada contribui para evitar a disseminação do HIV", disse.

O que pensam os médicos

Algumas opiniões de médicos que tratam de Aids em São Paulo, segundo a pesquisa:

  • 99% confiam na qualidade dos antirretrovirais genéricos distribuídos pelo Sistema Único de Saúde.
  • 92% acham que o Brasil deve lançar mão da quebra de patentes de medicamentos sempre que necessário.
  • 91% colocam a não adesão ao tratamento como um obstáculo frequente entre os pacientes de HIV/Aids.
  • 90% apontam o diagnóstico tardio como um problema frequente dos pacientes de HIV/Aids.
  • 82% acreditam que deve ser oferecida a possibilidade de ter filhos às pessoas que vivem com HIV.
  • 61% concordam com a criminalização de pessoas que, sabendo que têm HIV/Aids, infectam seus parceiros


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