Mulheres e homens usam psicoativos por motivos diferentes

Mulheres e homens usam psicoativos por motivos diferentes
Medicamentos psicoativos são usados para superar conflitos pessoais e estender os limites do corpo.
[Imagem: Ag.USP]

O uso de medicamentos psicoativos, como os antidepressivos e os ansiolíticos - estes também conhecidos como tranquilizantes - é tido como um meio de as pessoas buscarem auxílio para superar conflitos pessoais e socioeconômicos e aumentar os limites do corpo diante dos problemas da vida cotidiana.

A conclusão é de uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

Reginaldo Teixeira Mendonça, que é também professor da Universidade Federal de Goiás, estudou os aspectos relacionados ao consumo de antidepressivos e ansiolíticos fornecidos por farmácias públicas.

Caminho social do medicamento

Por meio de um estudo etnográfico, fazendo uso de entrevistas, fotografias e observação da vida cotidiana dos moradores, o pesquisador percorreu o "caminho social" do medicamento, que se iniciou na farmácia pública e se ampliou para o dia a dia dos 23 usuários entrevistados.

A área delimitada para a pesquisa foi escolhida pela diversidade, já que é constituída por favela, casas da Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab), casas de luxo e casas antigas. "Na região, há uma rua que divide a favela do bairro antigo. Existe, para quem mora no local, um conflito: a pessoa não quer ser relacionada à favela e quer se afirmar no bairro mais antigo. O desgaste emocional é muito grande e o uso de medicamentos é tido como uma forma de organizar esses conflitos", explica o farmacêutico.

Alívio para conflitos emocionais

Segundo o pesquisador, o uso desses medicamentos psicoativos tem, inicialmente, a finalidade de auxiliar nos conflitos emocionais dos pacientes, mas acaba causando um silenciamento do diálogo entre as partes conflituosas.

"As relações sociais são pautadas pelos medicamentos e essa tendência a medicalizar os conflitos pode ser considerada a produtora de um silêncio que impossibilita a pessoa de encarar qualquer mudança em relação à sua vida cotidiana", diz Mendonça.

Durante a pesquisa e a coleta de dados, foi verificado que a maioria das mulheres entrevistadas relacionou o contexto do ambiente doméstico com o uso dos medicamentos psicoativos.

"Elas disseram que o consumo desses medicamentos auxiliava nos afazeres ao proporcionarem disciplina e extensão dos limites do corpo. Além disso, afirmaram que os medicamentos são úteis para evitar e anular conflitos entre membros da família, servindo para manter as estruturas e hierarquia familiar, tendo o homem no 'comando' da casa", explica o pesquisador.

Humor e disciplina do corpo

Ao contrário das mulheres, os homens revelaram que o humor e a disciplina do corpo se tornam essenciais em relação tanto ao ambiente doméstico como fora deste.

Alguns trabalhadores relataram que utilizavam os ansiolíticos para organizarem o sono e os antidepressivos para serem simpáticos em seus trabalhos. Nesse sentido, os homens buscam nesses medicamentos a superação dos limites do corpo, na tentativa de se manterem como provedores e "donos" da casa.

De acordo com o farmacêutico, "a tendência é que o uso dos medicamentos psicoativos aumente entre os homens, pois estão relacionados ao aumento da atenção e superioridade sobre os limites do corpo. Um exemplo nesse caso são os homens que trabalham como vigias: usam o medicamento para controlar o sono e, com isso ter mais de um emprego".

Uso indiscriminado de psicoativos

Apesar da grande procura por esses medicamentos, o uso indiscriminado de psicoativos pode ser extremamente prejudicial à saúde, pois "muitas vezes, o problema não é físico, mas emocional e social", afirma Mendonça. De acordo com o pesquisador, o consumo de medicamentos deveria ser mais bem controlado e, para isso, é importante que haja uma relação estreita entre o serviço de saúde e a população consumidora.

O trabalho foi o vencedor do Prêmio Nacional de Incentivo à Promoção do Uso Racional de Medicamentos, organizado pelo Ministério da Saúde. A pesquisa foi orientada pelo professor Rubens de Camargo Ferreira Adorno, com o auxílio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).


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