Identificadas mutações relacionadas ao tumor de Wilms

Pesquisadores do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo, identificaram um conjunto de mutações genéticas relacionadas ao desenvolvimento do tumor de Wilms - a neoplasia renal mais frequente em crianças.

A descoberta é um primeiro passo que pode abrir caminho para o desenvolvimento de novas terapias e novos métodos para diagnosticar a doença mais precocemente.

"Atualmente, o diagnóstico só é possível quando já há uma massa tumoral palpável. Mas, se conseguirmos meios para identificar a neoplasia em uma etapa mais inicial, a intensidade do tratamento e dos efeitos colaterais poderá ser significativamente reduzida", disse Dirce Maria Carraro, líder do Laboratório de Genômica e Biologia Molecular do A.C. Camargo Cancer Center.

De acordo com Dirce, esse tipo de câncer acomete uma em cada 10 mil crianças no mundo - a maioria na faixa etária de 2 a 4 anos. O tumor pode aparecer em qualquer parte de um dos rins e, em 5% dos casos, é bilateral.

O tratamento geralmente envolve uma cirurgia para a retirada do órgão afetado, além de quimioterapia e - em casos mais avançados - radioterapia. A intensidade do tratamento quimioterápico depende da extensão da lesão.

"O prognóstico costuma ser bom, com taxas de cura em torno de 80%. Mas muitos pacientes sofrem com os efeitos tardios do tratamento. Os mais comuns são distúrbios cardíacos, perturbações musculoesqueléticas e desenvolvimento de um segundo tumor. Por esse motivo, muitas pesquisas buscam marcadores que permitam saber quando, de fato, é necessário intensificar o tratamento", contou Dirce.

Biogênese de microRNA

Segundo a pesquisadora, a mutação encontrada afeta o domínio de ligação de magnésio da proteína DROSHA - central para a enzima exercer corretamente seu papel dentro da célula. "Isso nos chamou a atenção, então decidimos expandir a análise para um número grande de amostras com o objetivo de ver se a mutação era frequente", disse.

Os cientistas detectaram essa mutação específica em 10% de todos os tumores avaliados - o que a classifica como uma mutação recorrente.

Esse resultado despertou a hipótese da importância da perturbação da biogênese de microRNA no desenvolvimento desse tumor. Para confirmá-la, os cientistas sequenciaram outros genes importantes que participam do processo de biogênese de microRNA, além do gene DROSHA.

As análises revelaram que 33% dos tumores tinham mutações nesses genes, entre eles DGCR8, DICER1, XPO5, TARBP2 e em outros domínios do gene DROSHA, reforçando o papel crucial da biogênese de microRNA no processo de formação do tumor de Wilms.

Paralelamente, o grupo confirmou que o fenômeno da diminuição preferencial no nível de expressão de microRNAs maduros também ocorria em tumores de Wilms com e sem a mutação em DROSHA, sugerindo fortemente que esse impedimento no processo de maturação é fundamental para a formação do tumor.

Os resultados dão prosseguimento a descobertas anteriores da mesma equipe que, em 2009, havia confirmado que genes podem sinalizar tumores que surgem sem sintomas.

Impacto prático

Na avaliação de Dirce, os achados abrem perspectivas para novos estudos que podem levar ao desenvolvimento de novas terapias, pois foi identificada uma via celular extremamente importante e frequentemente alterada em tumores de Wilms.

"Uma das estratégias que pretendemos testar no futuro é a possibilidade de detectar na urina de pacientes mutações nesses genes e em outros avaliados neste trabalho, que em conjunto compreenderam mais de 60% das amostras de Wilms. Isso abriria perspectivas de diagnóstico precoce, antes de manifestação clínica, de forma simples e de baixo custo", contou.


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