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28/02/2008

O trabalho informal é uma opção ou uma falta de opção?

Júlio Bernardes - Agência USP

Optando pelo trabalho informal

Pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP mostra que a trajetória dos trabalhadores da economia informal não é aleatória. As escolhas neste setor são motivadas pela avaliação das opções encontradas no mercado formal e informal, pelas relações pessoais e adesão a valores como a cultura do emprego. "Isso faz com que as pessoas não apenas apontem condições favoráveis em ocupações informais, mas também façam críticas a aspectos do emprego registrado", aponta a psicóloga Katia Ackermann, autora do estudo.

A cultura do emprego e a ética do trabalho

A psicóloga entrevistou trabalhadores de baixa renda em Osasco (Grande São Paulo) e em São Mateus (Zona Leste de São Paulo). "As histórias de vida dizem muito sobre o modo com que encaram a questão do trabalho e do emprego", ressalta. "A pesquisa descobriu valores comuns, mas vistos de formas diferentes, como a cultura do emprego e a ética do trabalho, e uma grande influência das redes de sociabilidade, como familiares e amigos"

A cultura do emprego tem a ver com uma suposta garantia de estabilidade e segurança trazida pelo trabalho registrado. "Cristiane (nome fictício), uma das entrevistadas, que aos 21 anos nunca trabalhou com carteira assinada, disse que seu maior desejo era ter um emprego formal", conta a pesquisadora.

Desvantagens do trabalho formal

Ao mesmo tempo, pessoas com experiência em profissões formais se queixaram de problemas nesses empregos, como exigências de qualificação, humilhações, não pagamento de horas extras, tarefas repetitivas e impossibilidade de maiores ganhos. "Houve muitas reclamações sobre as condições de trabalho em empresas de terceirização de serviços", aponta a psicóloga.

Trabalho informal por opção

Katia observa que mesmo na economia informal, existe uma racionalidade por trás da escolha das ocupações, motivada pelas condições do mercado, adesão a valores e presença das relações pessoais. "Cristiane se mantém na informalidade porque não consegue comprovar experiência para conseguir emprego, mesmo trabalhando desde os 12 anos", conta. "No caso de Sônia, 40 anos, vendedora de porta em porta, o nascimento dos filhos fez com que ela abandonasse o emprego numa tecelagem para ter um horário de trabalho mais flexível".

Influência das relações interpessoais

A trajetória de Cristiane é um exemplo da influência das relações interpessoais para a inclusão no mercado de trabalho, informal ou não. "Ela começou a trabalhar no sacolão de um primo aos 12 anos, e depois foi feirante e vendedora de trufas na companhia de outra prima", conta a psicóloga. "Além de vender os doces num mutirão em São Mateus, Cristiane começou a fazer serviços passados por um amigo e também passou a substituir moradores nas tarefas do mutirão, mediante pagamento".

A psicóloga ressalta que as relações pessoais entre os entrevistados "são sedimentadas pela dádiva, ou seja, o vínculo torna-se mais importante do que a indicação de trabalho em si". Os contatos forneceriam a segurança de não estar desprotegido, mesmo desempregado. "Chico, de 46 anos, que fazia serviços de construção civil mesmo quando trabalhava com registro em indústrias, conseguiu ampliar sua clientela por meio de indicações de pessoas para quem fazia reformas e pinturas".

Valorização das amizades

Duas pessoas que trabalham como vendedores de porta em porta disseram valorizar muito as amizades que fazem com a clientela. "Elas vêem o trabalho autônomo como uma possibilidade de ganharem mais dinheiro se trabalharem mais, o que não seria possível em um emprego com registro", observa Katia. "Na pesquisa, a ética do trabalho se manifestou como uma 'ética do provedor', ligada à idéia de que o trabalho moralmente superior é aquele que consegue sustentar o grupo familiar".


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