Pesquisa avança rumo a teste sangüíneo para a detecção de câncer no pâncreas

Pesquisa avança rumo a sangüíneo para a detecção de câncer no pâncreas

[Imagem: Faca et. al.]

Biomarcadores

Com participação brasileira, um grupo de pesquisadores identificou, nos Estados Unidos, uma série de proteínas ligadas ao desenvolvimento precoce de câncer do pâncreas.

De acordo com o estudo, feito em camundongos, as proteínas identificadas como biomarcadores também estão associadas à presença da doença em humanos em seu estágio pré-sintomático - o que representa um passo importante para o desenvolvimento de um teste que permita a detecção precoce da doença por meio de exame de sangue.

Pesquisador brasileiro

O estudo, publicado na semana passada na revista de acesso aberto PloS Medicine, teve como autor principal o brasileiro Vitor Faça, pós-doutorando no Centro Fred Hutchinson de Pesquisa do Câncer, em Seattle, nos Estados Unidos.

O pesquisador, formado pelo Centro de Química de Proteínas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), da Universidade de São Paulo (USP), foi orientado por Samir Hanash, diretor do Programa de Diagnóstico Molecular do centro norte-americano.

Câncer pancreático

Segundo Faça, a fim de encontrar biomarcadores para o câncer pancreático, o grupo estudou o proteoma do plasma sangüíneo - isto é, o conjunto de proteínas na parte fluida do sangue - de camundongos geneticamente alterados para desenvolver um câncer semelhante aos tumores pancreáticos humanos.

"Utilizamos as técnicas de espectrometria de massa de alta resolução e de marcação isotópica do plasma por acrilamida. Com isso, identificamos proteínas que estavam presentes em níveis elevados no plasma coletado dos animais com câncer pancreático em estágio inicial", disse Faça à Agência FAPESP.

Proteômica

A abordagem proteômica para a identificação de biomarcadores tem sido o foco principal dos estudos do grupo. Em abril, Faça, Hanash e outra pós-doutoranda do grupo, Sharon Pitteri, publicaram na revista Nature o artigo "Vasculhando o proteoma do plasma em busca de biomarcadores para o câncer".

Depois de realizar o fracionamento do plasma dos animais, os cientistas identificaram mais de 1.500 proteínas. Mas, de acordo com Faça, a maior parte delas correspondia apenas a proteínas inflamatórias. "Por diversos critérios, chegamos ao número de 45 proteínas que consideramos de fato relevantes para o câncer pancreático", disse.

Dentro da lista de proteínas quantificadas no modelo animal, os pesquisadores selecionaram nove que tinham potencial para subseqüente validação por Elisa (Enzyme Linked Immuno Sorbent Assay) - um teste imunoenzimático que permite a detecção de anticorpos ou antígenos específicos no plasma.

Testes em células humanas

Para testar se as alterações nas proteínas também seriam relevantes para o câncer pancreático humano, os pesquisadores analisaram inicialmente amostras coletadas em pacientes com a doença recém-diagnosticada.

Segundo Faça, as proteínas estavam em concentrações mais altas nessas amostras que nas daquelas colhidas entre pacientes com pancreatite crônica - uma doença benigna com sintomas semelhantes ao câncer pancreático.

"Uma limitação do marcador CA19.9, hoje utilizado para detectar o tumor em estágio inicial, é que ele não é capaz de diferenciar o câncer da pancreatite", explicou.

Depois disso, segundo o cientista, veio a parte-chave para validação da pesquisa. "Analisamos amostras de um estudo de prevenção de câncer realizado com 18 mil pessoas nos Estados Unidos. Com isso, tivemos acesso a 26 amostras que haviam sido coletadas de pacientes que ainda não haviam sido diagnosticados, mas que depois desenvolveram o câncer", declarou Faça.

Tecnologias médicas avançadas

Os diferentes passos do estudo, associados ao conjunto de métodos utilizados, segundo o pesquisador, tiveram como resultado a importante descoberta dos biomarcadores.

"Um dos pontos mais importantes desse estudo, do meu ponto de vista, foi o desenvolvimento do processo como um todo, com aplicação das novas técnicas que tínhamos à disposição, como a espectrometria de massa de alta resolução, que possibilita uma análise mais refinada do proteoma", disse o pesquisador.

O método de quantificação de plasma utilizando isótopos de acrilamida, de acordo com Faça, também é recente. E foi extremamente útil para o estudo, já que o plasma, devido à variabilidade de concentração de proteínas, é considerado uma das amostras mais complexas para a sinalização proteômica.

Plasma

"O plasma tem dez ordens diferentes de magnitudes de concentração de proteínas. Tivemos que desenvolver um método para transformá-lo e simplificá-lo. Uma proteína marcadora de um tipo específico de câncer tem baixíssima presença no plasma, no nível de poucos nanogramas por mililitro", afirmou.

O grande trunfo da equipe, segundo o cientista, foi o uso de modelos animais. "Os camundongos podem ter o crescimento controlado com precisão, eliminando variáveis que se refletem diretamente no plasma", disse.

Os próximos passos da pesquisa incluirão a validação de mais candidatos a biomarcadores. "Evidentemente, é preciso destacar que nossos estudos até agora são preliminares. Para desenvolver o teste será preciso ainda fazer grandes estudos clínicos com milhares de pessoas", afirmou.


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