Pesquisa sobre dor fantasma dá prêmio internacional a médico brasileiro

Estimulação cerebral profunda

Com um trabalho considerado promissor na área de estimulação cerebral profunda, o médico brasileiro André Machado foi um dos ganhadores do NIH Director's New Innovator Award, em 2009.

O prêmio, concedido pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, destina-se a financiar projetos de jovens pesquisadores que sejam altamente inovadores, mas que não disponham de dados preliminares suficientes para receber as bolsas regulares da instituição.

Dor pós-derrame

O projeto tem o objetivo de amenizar o sofrimento de pacientes de acidente vascular cerebral (AVC), que sentem dor mesmo sem estímulo externo. A estratégia consiste em agir na área do cérebro responsável pela percepção da emoção associada à dor.

Machado, que é diretor do Centro de Restauração Neurológica da Clínica Cleveland do Lerner College of Medicine, teve toda a sua formação feita na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Com a premiação, seu projeto de pesquisa receberá o valor de US$ 1,5 milhão para os próximos cinco anos.

Marca-passo cerebral

De acordo com Machado, sua área de pesquisa tem foco em um procedimento cirúrgico conhecido como estimulação cerebral profunda. "Esse tipo de cirurgia envolve o uso de um marca-passo cerebral que é instalado no paciente para tratar doenças de movimento como Parkinson", disse à Agência FAPESP.

Segundo ele, atualmente o procedimento padrão consiste na instalação desse marca-passo em uma região do cérebro genericamente conhecida como gânglio da base. "Essa tecnologia já está bem estabelecida e teve sua segurança e eficácia demonstradas", disse. O procedimento foi aprovado tanto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos.

A proposta visa ao desenvolvimento de novas aplicações desse procedimento. "Nosso projeto consiste em usar esse tratamento para pessoas que precisam dele para terapias bem estabelecidas. Pretende também tentar descobrir se podemos empregar a mesma tecnologia em outras áreas do cérebro para tratar outros problemas neurológicos", explicou.

Dor sem causa

A ideia, segundo Machado, é estudar se a estimulação da região do cérebro que está envolvida com o ajuste da emoção pode ajudar a tratar a dor que ocorre após um AVC. Esse tipo de dor atualmente não tem tratamento.

"A princípio, qualquer dor é uma forma de defesa do corpo contra ameaças do meio externo que possam causar dano a um tecido. Com isso, a dor é produzida apenas quando há um estímulo externo. Infelizmente, quando ocorre um AVC na região do tálamo, temos uma aberração da percepção no corpo. E a pessoa sente dores intensas sem nenhum estímulo externo real", explicou.

Esse tipo de dor decorrente do AVC no tálamo causa uma dor que geralmente é sentida em todo um lado do corpo, da cabeça - especialmente no olho - até o pé. "O paciente sente dores lancinantes e sensação de queimadura. Isso dura por toda a vida. Mesmo que não haja qualquer estímulo causador", afirmou.

Os dados disponíveis sobre a estimulação da dor e sobre a circuitaria cerebral envolvida mostram que a dor desenvolve um aspecto afetivo importante: trata-se de um sofrimento associado a ela.

"Nossa proposta é inovadora no sentido de propor a estimulação em uma região relacionada à percepção do sofrimento - o estriado ventral. Isto é, como não há estímulo, vamos agir na percepção da emoção associada à dor para tentar modular o sofrimento trazido por ela", disse.

Processamento da dor

O objetivo final, segundo Machado, é melhorar a qualidade de vida do paciente. "Sabemos que com esse tratamento, hoje, não curamos Parkinson. Mas, estimulando a região do cérebro envolvida com o movimento, conseguimos controlar problemas como rigidez, tremor e lentidão. O alívio sintomático é muito grande, melhorando a qualidade de vida. Queremos fazer o mesmo com a dor causada pelo AVC", destacou.

A proposta premiada foi avaliada por dois comitês científicos do NIH. A maior parte dos 500 projetos apresentados foi eliminada na primeira fase. A segunda comissão elaborou um ranking das propostas restantes e definiu, por mérito, o volume de recursos a ser investido nas 45 melhores propostas.

"De acordo com o parecer dos avaliadores, um dos pontos que contou a favor da nossa proposta é que não vamos nos limitar a avaliar se o tratamento funciona ou não, mas também coletar dados para entender como o cérebro do paciente está processando a dor", disse.

O cientista pretende, para isso, utilizar a magnetoencefalografia, exame de imagem que é capaz de observar como e quando determinadas regiões do cérebro são ativadas, identificando suas funções.

"Se antes e depois do tratamento observarmos diferenças de padrão na resposta à dor, além de confirmar se o tratamento funciona, vamos ganhar informação sobre quais regiões cerebrais estão envolvidas com a percepção da dor. Teremos então, ao mesmo tempo, uma nova aplicação tecnológica e dados de ciência básica", afirmou.


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