Pesquisadores brasileiros vão estudar causas do aborto espontâneo

Aborto espontâneo recorrente

Alterações de ordem imunológica são o principal fator causador do aborto espontâneo recorrente, que é caracterizado pela perda sucessiva de três ou mais gestações antes da vigésima semana de gravidez.

A fim de compreender melhor o mecanismo do problema - que afeta cerca de 5% dos casais em idade fértil - e aprimorar os tratamentos, um grupo de médicos decidiu criar a Rede Brasileira de Imunologia da Reprodução Humana, que será lançada oficialmente no 52º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, entre 13 e 17 de novembro, em Fortaleza.

Imunologia da reprodução

De acordo com o cordenador da rede, Ricardo Barini, que é professor livre-docente da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os principais objetivos da iniciativa são divulgar a imunologia da reprodução, criar uma base nacional de dados e estimular o debate sobre publicações na área.

"Participam especialistas no tratamento de abortos de repetição em São Paulo, Brasília, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza e Florianópolis. Todos trabalham com os mesmos protocolos de tratamento. O grupo terá foco na pesquisa voltada para o aspecto clínico", disse Barini à Agência FAPESP.

O pesquisador, que também coordena o Ambulatório de Aborto Recorrente da Divisão de Reprodução Humana da Unicamp, foi responsável pela introdução no Brasil de vacinas que corrigem o fator imunológico, viabilizando a gravidez em 85% dos casos.

"Em estudo que realizamos no ambulatório em 2006, verificamos que a causa mais freqüente do aborto recorrente foi o fator imunológico. Dentro disso, 94% dos casos estavam ligados ao fator aloimune", disse.

Rejeição do feto pelo sistema imunológico da mãe

O fator aloimune é um processo de rejeição do feto pelo sistema imunológico da mãe por falta de anticorpos bloqueadores que protegem as células embrionárias. "Esses anticorpos protegem o feto contra os fatores de agressão do organismo materno. Quando a mãe não os produz, o bebê não pode se desenvolver", explicou.

Segundo Barini, nesses casos o organismo da mulher não consegue adaptação imunológica para as características do homem, uma vez que não produz anticorpos contra os antígenos desse. A vacina então é produzida com glóbulos brancos do pai e introduzidas no organismo da mãe, fazendo com que ela produza os anticorpos bloqueadores, impedindo a interrupção da gravidez.

"Esperamos que a criação da rede facilite a descoberta de outros mecanismos ligados ao problema. Sabemos que a vacina muda o comportamento da resposta da mulher para a gravidez. Queremos saber como essa resposta se expressa na verdade e até que ponto há outras alterações não ligadas ao aspecto imunológico", disse o pesquisador.

Fatores aloimune e auto-imune

Além do fator aloimune, os abortos de repetição podem ser causados também pelo fator auto-imune, segundo Barini. Trata-se de reações de auto-agressão imunológica - em que o organismo da mãe gera substâncias contra partes específicas do seu organismo - que, em vez de promover auto-agressão, podem ser eventualmente nocivas ao feto.

"Um exemplo disso é a alteração da coagulação sangüínea provocada pelos anticorpos antifosfolípides, que podem gerar uma trombose, dificultando a irrigação da placenta e matando o embrião", explicou Barini.

Os casos ligados ao fator auto-imune, no entanto, são bem menos freqüentes. "Mas, quando estão associados aos fatores aloimunes, as chances de sucesso do tratamento são bem menores. Além das alterações imunológicas, as perdas espontâneas podem ser causadas também por problemas genéticos, anatômicos, infecciosos ou hormonais. A associação com qualquer um desses fatores piora o prognóstico", disse o professor da Unicamp.


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