Quando a gripe espanhola derrotou a Marinha brasileira

Quando a gripe espanhola derrotou a Marinha brasileira
Destróier Parahyba, que perdeu 13,7% de sua tripulação com gripe espanhola.
[Imagem: DNOG/Marinha do Brasil]

Gripe contra-ataca

Poucas pessoas sabem sobre a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial.

Embora o Brasil tenha-se mantido neutro durante a maior parte do conflito, o país enviou uma frota para apoiar o esforço de guerra. Foi o único país latino-americano a fazê-lo.

Mas a expedição brasileira encontrou um inimigo inesperado e traiçoeiro no litoral africano contra o qual nenhuma armada estava preparada: a gripe espanhola.

A gripe espanhola varreu o mundo em 1918-1919 e, em poucos meses, fez mais vítimas do que o número total de mortes no campo de batalha durante a guerra.

As estimativas variam entre 20 a 50 milhões de mortes em todo o mundo, tornando-a uma das mais devastadoras epidemias da história recente.

Ainda assim, em poucos lugares a pandemia foi tão mortal quanto entre a frota brasileira enviada à costa do Senegal.

Marinha contra a gripe

Em Dacar, o cemitério ainda conserva os túmulos de mais de uma centena de soldados brasileiros (mais de um décimo de toda a tripulação), que sucumbiu ao surto de gripe.

Os relatos da experiência compõem uma leitura sombria e descrevem um dos episódios mais trágicos da história das forças armadas brasileiras.

Agora, um grupo de brasileiros e australianos, incluindo Francisco Almeida, da Escola de Guerra Naval do Rio de Janeiro, analisaram esses relatórios para descobrir o que pode explicar esta que foi a maior taxa de mortalidade por gripe em qualquer navio já registrado até hoje.

Doenças do trabalho

De forma nada surpreendente, a pesquisa revelou que os membros da tripulação mais afetados pela gripe espanhola foram aqueles que provavelmente tinham o sistema respiratório enfraquecido por suas condições de trabalho.

A taxa de mortalidade mais elevada da frota ocorreu entre os alimentadores de fornalhas e os oficiais da casa de máquinas, que estavam constantemente expostos à fumaça e ao pó de carvão das caldeiras.

Acredita-se que, nesses membros da tripulação, os danos pulmonares e o estresse oxidativo das células epiteliais respiratórias sejam os principais fatores que exacerbaram o impacto da exposição ao vírus.

Pandemias passadas e futuras

Os autores também apontam o fato de que os membros da tripulação provavelmente não tinham imunidade prévia contra o vírus, devido à falta de exposição à onda anterior e mais leve desta pandemia, que ocorreu no início de 1918, mas largamente circunscrita ao Hemisfério Norte.

Além disso, a escassez de água potável pode ter sido um fator agravante para a alta mortalidade entre os soldados brasileiros ancorados no calor da costa senegalesa.

Além de seu valor histórico, a pesquisa pode contribuir para uma melhor compreensão dos diversos fatores presentes durante as pandemias de gripe ocorridas no passado, e que podem ainda nos ameaçar no futuro.

O trabalho foi publicado no Journal of Influenza and Other Respiratory Viruses.


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