Racismo científico pode renascer com base na genômica, diz antropóloga

Racismo científico pode renascer com base na genômica, diz antropóloga
"Nossa espécie é definida pela mistura regular de povos e ideias ao longo de milênios," disse Jablonski. "Buscar novas razões para segregar as pessoas é algo hediondo."
[Imagem: PennState]

Preconceitos científicos

O racismo como um conceito científico é reformulado e renasce periodicamente através dos tempos.

Nina Jablonski, antropóloga da Universidade do Estado da Pensilvânia (EUA) chamou novamente a atenção do mundo para esse fato durante a reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência.

Segundo ela, cientistas, pesquisadores e médicos precisam ter cuidado para que o crescimento da genômica não traga outro ressurgimento do racismo científico.

"O que estamos nos deparando agora é um momento em que o conhecimento genômico se amplia e a engenharia genética se torna possível e generalizada. Devemos monitorar constantemente como essas informações sobre a diversidade genética humana são usadas e interpretadas.

"Qualquer sistema de crenças que busque separar as pessoas com base na herança genética ou em diferentes características físicas ou intelectuais é simplesmente inadmissível na sociedade humana," disse Jablonski.

O que preocupa a pesquisadora são "pessoas que acreditam que podem usar traços genéticos para descrever as raças e desenvolver intervenções específicas para cada grupo" - muitas vezes escondidas sob o rótulo de "medicina personalizada".

O problema é que não são "pessoas defendendo crenças" que fazem surgir o racismo científico, mas cientistas que se apresentam perante a sociedade como tendo "provas científicas irrefutáveis", contra as quais os "leigos" nada poderiam fazer.

E Jablonski não é a única a mostrar que o campo da genética está na corda bamba da ética: recentemente, um pesquisador lançou um livro alertando que interesses econômicos estão tentando reavivar o conceito de raça.

Busca pela separação

Basta ver o caminho que as coisas começam a seguir para ver quando algo tende a dar errado.

Uma abordagem particularmente perturbadora, embora atualmente apontada como benéfica e "científica", diz Jablonski, é a aplicação da genética para criar abordagens especiais para a educação.

A ideia de que certos indivíduos e grupos aprendem de forma diferente devido à sua composição genética, e por isso precisam de programas educacionais especializados, poderia ser o primeiro passo em uma ladeira escorregadia para a recriação de um novo tipo de "iguais mas separados".

Abordagens semelhantes na medicina, que são baseadas não na genética pessoal, mas em generalizações raciais, podem ser igualmente incorretas e preocupantes, principalmente porque o que é prevalente no mundo é a mistura genética, não existindo nada que se possa chamar de "pureza genética".

"Nossa espécie é definida pela mistura regular de povos e ideias ao longo de milênios," disse Jablonski. "Buscar novas razões para segregar as pessoas é algo hediondo."

Racismo científico

No último quartel do século 18, o filósofo Immanuel Kant classificou as pessoas pelo comportamento e cultura. Kant sugeriu que havia quatro grupos de pessoas, das quais três eram inferiores porque existiam em condições não favoráveis ao "grande intelecto". Só a raça europeia era capaz de auto-aperfeiçoamento e mais alto nível de civilização.

Logo depois, Hegel criou uma teoria da história que colocava o homem europeu no ápice do desenvolvimento da humanidade, um conceito que até hoje é a base de toda a ciência, que encara todas as civilizações anteriores à nossa como "inferiores" ou mais atrasadas - Hegel teve que defender que a China e a Índia antigas não tinham desenvolvido uma ciência e uma filosofia porque isso contrariava sua teoria.

No final do século 19, depois que as ideias de Darwin foram adotadas pelos cientistas, muitos aplicaram os princípios da evolução biológica às esferas cultural, política e social, desenvolvendo o conceito de darwinismo social.

Embora gerações de cientistas tenham comungado e apoiado essas ideias, agora que o darwinismo social foi abandonado, todos os dedos de condenação apontam apenas para o sobrinho de Darwin, Francis Galton, que sugeriu que, em algumas partes do mundo, ainda havia "raças puras" e que estas precisavam ser preservadas.

Essa linha de pensamento levou ao movimento da eugenia e às ideias de engenharia eugênica do início do século 20, que reforçaram a ideia da superioridade racial europeia e da necessidade de defender uma "pureza racial".

De acordo com Jablonski, não é de estranhar que o racismo científico esteja experimentando um renascimento, mas não porque os cientistas sejam mal-intencionados ou necessariamente tenham um sistema de crenças racistas.

Ela acredita que os neorracistas científicos não apenas jamais se reconheceriam como tal, como geralmente são bem-intencionados - mas que a aplicação de intervenções baseadas em genômica, por mais que possa parecer potencialmente benéfica, não pode ser feita em uma base racial.


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