Saúde eletrônica não cura todas as doenças dos hospitais

Pacientes digitalizados

Não faz muito tempo que termos como "saúde eletrônica", "saúde digital", telemedicina, ou mesmo eSaúde e até eHealth começaram a fazer parte do dia-a-dia das pessoas.

Mas há alguns temores de que o setor da saúde possa ser oprimido pelas novas tecnologias, sem que os profissionais estejam prontos para tirar o máximo proveito delas.

E os pacientes, estes poderão ter que esperar anos antes de ver os benefícios, se é que haverá algum.

É o que demonstra a experiência recente da Suíça, país no qual o governo vem dando total suporte aos hospitais em busca de modernização.

Vantagens da saúde digital

Algumas vantagens dos dados digitais é que são mais baratos, sem ambiguidades e permanentes.

Os garranchos médicos difíceis de decifrar, bem como o papel amarelado, as fotografias, raios X e ultrassonografias desbotadas, em breve deixarão de existir.

Ferramentas como sistemas médicos informatizados e registros de saúde eletrônicos prometem melhorar a qualidade e cortar os custos.

Os médicos também esperam que a tecnologia possa ajudar a reduzir o número de erros no sistema de saúde, melhorando, por exemplo, a orientação na dosagem dos medicamentos.

Nos Estados Unidos, há cerca de 100 mil mortes por esse tipo de erro a cada ano. Quem conta é Christian Lovis, presidente da Sociedade Suíça de Informática Médica.

Segundo Lovis, os hospitais precisam de poderosas redes de tratamento de dados para armazenamento e suporte de tarefas administrativas.

Petabytes

A saúde eletrônica abrange todos os processos eletrônicos envolvidos na área da saúde, incluindo arquivos eletrônicos de pacientes, telemedicina, dados de consumo de medicamentos, equipes de saúde virtuais e dispositivos móveis para coletar e acessar os dados do paciente.

Na prática, ainda existem alguns problemas a serem resolvidos. Thomas Wally, da Deutsche Telekom, presta consultoria na área de TI ao Hospital Universitário de Berna há 12 anos. Segundo ele, foram precisos dois anos e meio para introduzir uma nova plataforma de armazenamento de dados com um petabyte de capacidade - o equivalente a um milhão de gigabytes.

"Mudar do papel para os bits e bytes em um hospital é muito complicado," disse, por sua vez, Richard Egger, farmacêutico do também suíço Hospital de Aarau. "Precisamos escanear os rótulos e usar identificação eletrônica, tudo com um padrão comum".

Os serviços de saúde sempre foram obrigados a adquirir novas tecnologias. Desta vez, no entanto, além de terem que ser fáceis e seguros de usar, os produtos também exigem uma mudança de práticas, a aprendizagem de novos processos, e um redesenho do ambiente de trabalho.

"A ideia de eHealth não é trabalhar exatamente como antes, usando apenas algumas novas funcionalidades. Isso seria como dirigir um ônibus espacial com instrumentos de aviões antigos", explica Lovis. "Se for para usar mal o sistema, é melhor trabalhar sem eHealth".

Lovis, que também é chefe da Divisão de Ciências de Informação Médica do Hospital Universitário de Genebra, disse que a informática médica é uma área que ainda é bastante jovem.

Papelada

"A característica mais notável desta medicina do século XXI é que ela é mantida junto com a papelada do século XIX", diz Lovis.

A frase ainda soa verdadeira mesmo para um país de primeiro mundo como a Suíça: menos de um terço dos médicos utilizam registros eletrônicos de pacientes.

Mas, enquanto os hospitais e consultórios demoram para mudar, as empresas de telecomunicações estão ansiosas para encontrar saídas para seus produtos.

"O sistema de saúde suíço ainda é altamente fragmentado e dominado por onerosos procedimentos em forma de papel", diz Stefano Santinelli da empresa suíça de telecomunicações Swisscom.

Santinelli calcula que a automação reduziria o custo de uma fatura de 25 francos suíços (U$27) para menos de 3 francos.

Invenção de médico

Contudo, ante a pressão mercadológica dos vendedores de sistemas, algumas vezes os médicos precisam se ajudar, criando soluções que sejam adequadas às suas realidades, em vez de se adaptarem a soluções empacotadas vindas de fora.

Victor Dubois-Ferrière, ortopedista do Hospital Universitário de Genebra, desenvolveu um dispositivo com sensores de movimento usado originalmente em um videogame para orientar as ações cirúrgicas sem tocar na tela.

"Não sou um especialista de TI, sou apenas um ortopedista criativo", disse Dubois-Ferrière. "Nosso objetivo foi criar um sistema de controle remoto sem toque, que respeita as regras de assepsia na sala de operações. A ferramenta foi desenvolvida pelo médico para o médico", explica.

"Os sistemas eletrônicos podem sempre falhar, podem perder dados e acabar dando o apoio errado", diz Lovis. "Nunca devemos esquecer que existem pacientes na outra extremidade. Isso não é brinquedo".

No final das contas, segundo ele, a introdução de soluções de saúde eletrônica só é bem-sucedida se for abordada a partir de uma perspectiva do paciente.


Ver mais notícias sobre os temas:

Saúde Pública

Softwares

Robótica

Ver todos os temas >>   


  

A informação disponível neste site é estritamente jornalística, não substituindo o parecer médico profissional. Sempre consulte o seu médico sobre qualquer assunto relativo à sua saúde e aos seus tratamentos e medicamentos.
Copyright 2006-2016 www.diariodasaude.com.br. Conteúdo publicado sob licença de www.sciencetolife.com. Todos os direitos reservados para os respectivos detentores das marcas. Reprodução proibida.