Se exames preventivos não ajudam, por que os médicos insistem neles?

Mercado da prevenção

É cada vez maior a preocupação na comunidade médica e acadêmica com o exagero dos chamados exames preventivos e das campanhas de rastreio, que buscam doenças em quem não apresenta sintomas.

Além de custar milhões aos sistemas públicos de saúde, às voltas com seus infindáveis problemas de sustentabilidade financeira, uma série cada vez maior de estudos comprova que esses exames podem fazer mais mal do que bem.

Mas está difícil convencer os médicos e as autoridades de saúde a mudarem seu comportamento - mundialmente, recomendações continuam sendo feitas para que pessoas realizem "exames periódicos" a cada cinco anos ou, após uma certa idade, que varia dos 50 aos 60 anos, que os realizem anualmente.

Ganhos desprezíveis

O problema é que parece difícil contestar a ideia geral de que a medicina preventiva só traz ganhos, permitindo identificar doenças em estágio precoce, quando elas são mais fáceis de tratar.

O que é sempre esquecido é que esses exames geram uma série de falsos positivos, levam a tratamentos desnecessários e, como demonstra um estudo que analisou o problema de uma forma inédita, os benefícios à saúde desses check-ups são pequenos demais para serem sequer mensurados (http://dx.doi.org/10.1503/cmaj.151201).

O assunto está agora sendo discutido abertamente na Inglaterra, mas o equivalente ao ministério da saúde daquele país se posicionou contra o estudo argumentando que outras estimativas têm encontrado benefícios significativos da medicina preventiva.

Isso é verdade, mas essas estimativas vinham avaliando a utilidade dos exames preventivos apenas contando o número de novos diagnósticos feitos. O estudo publicado na semana passada foi o primeiro a estimar quedas no risco de doenças com base em reduções na medição dos níveis de colesterol e outros fatores, que resultam dos alertas emitidos pelos exames periódicos.

Mais danos que benefícios

Mas o tipo mais confiável de evidência só pode ser coletado por um estudo randomizado, como o realizado na Dinamarca e que não encontrou nenhuma redução de ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais ou taxas de mortalidade em decorrência da medicina preventiva - na verdade, os check-ups aumentaram ligeiramente as mortes por doença cardíaca.

Um dos pesquisadores dinamarqueses, Torben Jorgensen, da Universidade de Copenhague, afirma que o resultado contra-intuitivo provavelmente se deve a que tão poucas pessoas se beneficiam que qualquer ganho é compensado pelos danos do sobrediagnóstico e do sobretratamento - dar remédios para pessoas que quase nunca precisam deles.

Prevenção que aumenta o risco

Há vários casos de prevenção que aumenta os riscos à saúde.

As estatinas para baixar o colesterol, por exemplo, podem causar diabetes e dor muscular que impede que as pessoas se exercitem, enquanto as drogas para pressão arterial podem causar tonturas que levam a quedas. A bateria de testes e alertas sobre estilo de vida também pode tornar as pessoas infelizes e mais estressadas, fator que sabidamente contribui para ataques cardíacos.

E as campanhas, cartazes e folhetos informativos que incentivam as pessoas a participar dos exames preventivos não citam quaisquer desses riscos, ainda que uma regra de ouro na Medicina seja que nenhuma intervenção deve ser oferecida a um paciente sem explicar plenamente os seus prós e contras.

Felizmente, já há alguns esforços para sanar essas lacunas, como uma campanha contra o excesso de exames e tratamentos que começou nos EUA e acaba de chegar ao Brasil.


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