É hora de nos desconectarmos do tecno-fetichismo

É hora de nos desconectarmos do tecno-fetichismo
Clive Hamilton, autor deste artigo, é professor de ética na Universidade Charles Sturt, na Austrália.
[Imagem: Arquivo Pessoal]

Máquinas contra humanos

Quando o computador IBM Deep Blue derrotou o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, em 1997, pareceu a muitos que havíamos cruzado um limiar.

Ao sermos superados na nossa (discutivelmente) tarefa intelectual mais complexa, o homem tinha sido finalmente derrotado por uma máquina.

A derrota de Kasparov gerou angústia naqueles com medo do poder colonizador do mundo das máquinas. Os jornais classificaram a batalha como uma competição contra os humanos, com todas as nossas inteligências e fraquezas contra as máquinas impessoais perseguindo roboticamente seu objetivo.

Para outros, a vitória do Deep Blue foi uma inspiração, um prenúncio da transição da humanidade para uma utopia tecnológica. Estes preveem uma "singularidade tecnológica" iminente, quando os computadores superam um ponto crítico para atingir uma superinteligência além das capacidades humanas. A seguir, a tecnologia irá definir o seu próprio curso de acordo com as suas próprias intenções.

Na verdade, porém, um computador não venceu o campeão russo. Com a ajuda de vários mestres de xadrez, uma dupla de programadores derrotou Kasparov. Eles descobriram como programar um computador com tal exatidão que ele poderia realizar cálculos suficientes do tipo certo para vencer. Isto é tudo.

Se o Deep Blue (azul profundo) não tivesse derrotado Garry Kasparov, mas, digamos, um outro computador chamado Deep Red (vermelho profundo), iríamos concluir com exatidão que os programadores do Deep Blue tinham sido mais inteligentes do que os programadores do Deep Red.

Então, por que a derrota de Kasparov fez tantos puxarem os cabelos e temerem o dia em que os computadores iriam dominar o mundo, revertendo a ascendência que os seres humanos sempre tiveram sobre as máquinas?

Desidealizando a tecnologia

Vendo a coisa sociologicamente, acredito que a resposta é que nós transformamos o computador em um fetiche - ou seja, um objeto inanimado adorado por seus aparentes poderes mágicos. Temos nos persuadido de que os computadores são muito mais poderosos do que nós e são capazes de se libertar do nosso controle.

Nenhuma das duas coisas é verdadeira.

Então, o que é que realmente se tornou diferente em nossas vidas como resultado do surgimento dos computadores?

Quando paramos e pensamos sobre todas as coisas básicas que fazemos a cada dia, a resposta é "não muito".

Os computadores nunca tiveram o impacto na vida diária que teve a revolução industrial e a urbanização, e ainda assim dizemos a nós mesmos que vivemos em uma era digital, uma era definida pelos computadores.

Caímos em um mundo de sensacionalismo criado por aqueles cujas vidas estão ligadas à fabricação, operação e venda de computadores, e impulsionado por repórteres ofegantes, futurólogos de plantão e uma indústria de TI na qual confiamos demais.

Sem dúvida, isso se deve em parte a um amor excessivo à nossa própria capacidade tecnológica, nossa capacidade ilimitada para olhar com admiração para nossa própria inventividade e poder de conquista. Mas, ao mesmo tempo, estamos com medo do excesso tecnológico, de ceder às máquinas coisas que são essenciais para a nossa humanidade, e estamos com medo de que as máquinas assumam uma vida própria.

É hora de nos desconectarmos do tecno-fetichismo
O que realmente se tornou diferente em nossas vidas como resultado do surgimento dos computadores? Não muito, diz pesquisador.
[Imagem: vernhart]

Espaço vago de Deus

Por que transformamos os computadores em um poder independente e alienígena ameaçando nos privar da nossa autonomia? Afinal, um computador não pode se libertar dos seus programadores humanos mais do que um ábaco pode assumir o controle de um bazar.

Imaginar o contrário é uma projeção, como a imagem mental de Dorothy, de O Mágico de Oz, antes dela afastar a cortina para encontrar um velhinho puxando as cordas.

Quando pensamos nisso, é difícil não concluir que, neste mundo secular, nós fizemos os computadores ocuparem parte do espaço deixado vago por Deus. Há décadas, os psicólogos têm medido um traço de personalidade conhecido como "locus de controle", que mede o grau em que sentimos nossas vidas como sendo controladas por nós mesmos, em vez de serem controladas por forças externas.

O supercomputador Deep Blue é uma máquina e só derrotou Kasparov porque o xadrez é um jogo que se presta a algoritmos precisos. Mesmo assim, é uma máquina que funciona por meio do poder da computação de força bruta, em vez da inteligência criativa da mente humana.

Um computador nunca pode ser inteligente, ou autônomo. Além disso, jogar xadrez não é o que nos torna humanos.


Ver mais notícias sobre os temas:

Ética

Softwares

Sentimentos

Ver todos os temas >>   

A informação disponível neste site é estritamente jornalística, não substituindo o parecer médico profissional. Sempre consulte o seu médico sobre qualquer assunto relativo à sua saúde e aos seus tratamentos e medicamentos.
Copyright 2006-2016 www.diariodasaude.com.br. Conteúdo publicado sob licença de www.sciencetolife.com. Todos os direitos reservados para os respectivos detentores das marcas. Reprodução proibida.