Ter risco de doença está se tornando uma doença por si mesmo

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Classificar uma pessoa como sendo de "alto risco" de desenvolver uma doença específica tornou-se uma doença por si só, e está transformando pessoas saudáveis em pessoas doentes de fato, diz o Dr. Teppo Jarvinen.
[Imagem: Helsinki University]

Risco como doença

Com a tendência crescente à medicalização, é cada vez mais comum falar à população em termos de "riscos" de doenças - cálculos estatísticos que quase nunca partem dos fatores reais envolvendo cada pessoa.

Ocorre que essas classificações estão longe de serem neutras.

Na verdade, classificar uma pessoa como sendo de "alto risco" de desenvolver uma doença específica tornou-se uma doença por si só, e está transformando pessoas saudáveis em pessoas doentes de fato.

É o que argumenta o professor Teppo Jarvinen, do Hospital Universitário de Helsinque (Finlândia) em um editorial publicado no British Journal of Sports Medicine.

Analfabetismo do risco

O alerta do especialista é ainda mais grave conforme ele mostra que os médicos são tão ruins quanto os pacientes em entender o que significa "alto risco" e o benefício esperado de qualquer tratamento preventivo.

"Este 'analfabetismo do risco' prejudica a medicina preventiva e a capacidade dos doentes para cuidar de sua própria saúde," diz o professor Jarvinen.

E, algumas vezes, o esforço necessário para a prevenção consome muito mais recursos do que o tratamento da condição que essa prevenção se destina a evitar, diz ele, e cita vários exemplos da forma com que o conceito de alto risco distorce a percepção dos problemas de saúde.

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Outros pesquisadores já vinham alertando que o excesso de diagnósticos já representa perigos para a saúde humana.
[Imagem: Wikipedia/Gigillo83]

Cerca de 10 anos atrás, o limiar para o tratamento da pressão arterial elevada, ou hipertensão, nas diretrizes europeias sobre doenças cardiovasculares classificava a maioria dos adultos noruegueses - uma das populações mais saudáveis do mundo - como sendo de alto risco.

Se essas orientações tivessem sido colocadas em prática pelas autoridades de saúde da Noruega, "o foco na hipertensão teria drenado todo o orçamento primário de saúde," aponta o professor Jarvinen.

Da mesma forma, uma orientação recente da Fundação Nacional de Osteoporose dos EUA sobre o limiar para o tratamento da doença dos ossos frágeis estipula que o tratamento deve ser oferecido a todos aqueles cuja probabilidade de sofrer uma fratura de quadril nos 10 anos seguintes seja de 3%.

Nesta base, argumenta Jarvinen, quase três em cada quatro mulheres brancas com idade superior a 65 anos nos EUA, e mais de 90% das pessoas acima de 75 anos de idade, deveriam receber o tratamento medicamentoso.

E não pára por aí. "A nova diretriz sobre o colesterol coloniza praticamente toda a população de idosos no reino dos 'doentes'," ressalta o especialista.

Tirania da eminência

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O excesso de diagnósticos de hiperatividade e a forma como a psiquiatria começou a inventar doenças estão entre as maiores preocupações dos especialistas que estudam a medicalização e a chamada "síndrome das doenças inventadas".
[Imagem: RUB-Pressestelle/Babette Sponheuer]

E não adianta vir com o argumento de que as diretrizes devem ser "discutidas com o seu médico", diz o professor Jarvinen, porque as pessoas não deveriam ter tanta fé nos médicos para descobrir quem mais precisa de tratamento, defende ele.

"Se assumirmos que os médicos são realmente mais competentes em fazer juízos de valor sobre a vida de seus pacientes do que os pacientes que sentam-se na frente deles, não deveríamos ter provas de que os médicos podem fazer o trabalho?" pergunta ele. "Infelizmente, apesar da educação médica e da experiência clínica, os médicos não parecem possuir a habilidade necessária."

"Mas sem uma compreensão exata desses aspectos essenciais, não há nenhuma base para decisões compartilhadas. E sem uma tomada de decisão compartilhada, a intervenção farmacológica primária torna-se uma tirania da eminência", diz ele, referindo-se à "pretensa autoridade" dos médicos, que não possuiriam a habilidade necessária para dirigir o processo decisório.

"Apesar dos esforços louváveis para melhorar a comunicação e a compreensão tanto do conceito de risco, quanto do benefício do tratamento antecipado, um analfabetismo do risco da mais grave magnitude ainda afeta médicos e pacientes," conclui ele.


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