Transtorno bipolar afetivo poderá ser identificado por exames

Transtorno bipolar afetivo poderá ser identificado por exames
Estudo desenvolvido na Unicamp abre novos caminhos na busca de possíveis biomarcadores para a doença - elementos presentes no corpo que podem ser detectados por exames.
[Imagem: Antoninho Perri]

Exame para detectar transtorno bipolar

O transtorno afetivo bipolar (TAB), doença do campo da psiquiatria, acomete de 1% a 3% da população mundial, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Agora, um estudo desenvolvido por Alessandra Sussulini, do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, abre novos caminhos na busca de possíveis biomarcadores para a doença - elementos presentes no corpo que podem ser detectados por exames.

A pesquisa conseguiu diferenciar - com base na análise de proteínas, lipídios e metais - não somente pacientes com TAB de indivíduos-controle, sem a doença, mas também aqueles pacientes tratados com lítio daqueles tratados com outras drogas.

Biomarcadores

A partir da utilização de tecnologia de ponta - ressonância magnética nuclear de prótons e espectrometria de massas - Alessandra revelou que a proteína apolipoproteína A-I, relacionada ao metabolismo de lipídios, é encontrada em menor nível em pacientes com transtorno bipolar e em proporção ainda menor naqueles que não utilizam o lítio, droga predominante no tratamento.

O trabalho inédito, segundo a pesquisadora, abre novas perspectivas para o entendimento da fisiopatologia do transtorno e para a busca de biomarcadores.

De acordo com o orientador da pesquisa, Marco Aurélio Zezzi Arruda, alguns lipídios e outros metabólitos já foram reportados em trabalho recentemente publicado no periódico Analytical Chemistry, referente à parte inicial da tese de Alessandra.

Efeitos dos tratamentos do transtorno bipolar

Alessandra também observa uma distinção nos perfis ionômicos ao comparar indivíduos do grupo controle e os pacientes com transtorno afetivo bipolar a partir das análises das amostras de soro.

Ela acrescenta que os diferentes tratamentos (utilizando lítio ou não) também proporcionaram alterações no perfil ionômico das amostras.

Proteínas e metais

Além da apolipoproteína A-I, a pesquisadora identificou diferenças entre os grupos de pacientes estudados também em relação à transtiretina e à alfa-1-antitripsina, que são proteínas de fase aguda.

Ela explica que, ao comparar o comportamento dessas proteínas com o descrito na literatura para pacientes esquizofrênicos, observou-se que a transtiretina tem variação diferencial em seus níveis, nos dois casos.

Quanto aos metais, a pesquisa levanta uma diferenciação em termos de metais ligados a proteínas de soro. Segundo ela, foram identificadas oito proteínas diferentes contendo metais ligados, destacando-se a apolipoproteína A-I, a transtiretina e a vitronectina, que haviam sido identificadas previamente nas análises proteômicas por apresentarem alterações em suas expressões.

"Ainda não podemos dizer que a apolipoproteína A-I seja um biomarcador definitivo. É necessário ser realizado um estudo com um maior número de amostras, mas é um potencial biomarcador a ser investigado em estudos futuros e mais avançados", explica.

Transtorno bipolar e qualidade de vida

Alessandra traz uma novidade para a literatura com uma pesquisa de ponta que teve origem numa preocupação pessoal de usar a química para contribuir com o avanço da medicina na busca de proporcionar melhor qualidade de vida a pessoas que convivem com a realidade do transtorno bipolar.

A convivência com pessoas que vivenciam o problema e o contato com as técnicas de espectrometria de massas foram a motivação para o desenvolvimento da pesquisa. Alessandra enfatiza que a doença não mobiliza apenas o paciente, mas todas as pessoas a sua volta. "É uma forma de aplicar o conhecimento desenvolvido na Universidade na sociedade", declara.

Muito trabalho à frente

Para Cláudio Banzato, do Departamento de Psiquiatria da Unicamp, a tese representa um estudo avançado, com resultados consistentes entre si e abre perspectivas de estudos para a elucidação dos mecanismos patofisiológicos do TAB, assim como compreensão do mecanismo de atuação das drogas utilizadas atualmente.

"Mas estamos olhando bem de longe ainda. A Alessandra obteve resultados muito interessantes sobre o que acontece no nível molecular com esses pacientes. A esperança é que isso ilumine um pouco os futuros estudos e também nos faça entender melhor por qual via os remédios funcionam. Temos de estudar grupos maiores, com controles mais rigorosos para poder dizer até que ponto tais proteínas são candidatas a biomarcadores. Isso significa estudar inclusive pacientes antes de quaisquer tratamentos e discriminar melhor os diversos regimes medicamentosos", explica Banzato.

As diferenças encontradas entre os pacientes no estudo, segundo o psiquiatra, são interessantes por darem pistas sobre possíveis mecanismos associados ao surgimento do transtorno ou ao tratamento. "Digamos que seja um passo inicial, modesto e ainda assim importante na direção de buscarmos futuros biomarcadores. Descobrimos algumas alterações que valem a pena investigar melhor", enfatiza Banzato.

Banzato explica que o repertório terapêutico psiquiátrico para tratar o transtorno afetivo bipolar inclui o lítio e outros estabilizadores de humor, que têm-se apresentado eficientes no tratamento, porém, com diversos efeitos colaterais. O lítio, segundo o médico, além de utilizado para tratamento de episódios de mania e depressão, tem atuação na prevenção dos mesmos, sobretudo da mania.

O que é transtorno afetivo bipolar

De acordo com Banzato, a doença é um transtorno mental grave, muitas vezes incapacitante e se caracteriza por fases de depressão e fases de mania.

Na fase de depressão, a pessoa apresenta tristeza e desânimo, incapacidade de sentir prazer nas atividades que antes apreciava, às vezes inclusive ideias de morte.

E nas fases de mania (termo técnico da psiquiatria), o paciente experimenta exaltação do humor, expansividade, euforia ou irritabilidade, energia além do normal, podendo realizar gastos excessivos ou se expor de forma inadvertida a inúmeros riscos.

Muitas vezes, o paciente apresenta diversos episódios de depressão e é diagnosticado como tendo um transtorno depressivo recorrente. Mais adiante, por apresentar um episódio de mania, o diagnóstico é modificado para transtorno afetivo bipolar.

Isso tem consequências importantes em termos da escolha de estratégias terapêuticas. O esperado, segundo Banzato, é que depois de uma fase a pessoa tenha uma recuperação e volte a seu nível de funcionamento normal. "Nem sempre isso acontece, mas esse é nosso objetivo."


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