Surge nova estratégia para tratamento de doenças infecciosas

Tolerância à infecção: nova estratégia para tratamento de doenças infecciosas
As infecções acarretam dois tipos de "prejuízo" ao hospedeiro. Os patogéneos podem danificar diretamente os tecidos do hospedeiro (seta cor de rosa ascendente). O sistema imunológico do hospedeiro reduz a quantidade de patógeno no organismo (seta verde descendente) através de mecanismos de resistência. O sistema imunológico também pode danificar os tecidos do hospedeiro (setas verde e cor de rosa ascendente). O hospedeiro reduz estes "prejuízos" através de mecanismos de tolerância que reduzem os danos diretos causados pelos patogéneos e o impacto negativo das defesas imunológicas (balões verdes).
[Imagem: Science/AAAS]

Terceira via contra as infecções

Praticamente toda a medicina convencional se baseia na utilização de duas estratégias empregadas pelo sistema imunológico contra doenças infecciosas: a detecção e a eliminação dos agentes invasores.

Mas três cientistas estão agora propondo que seja considerada uma terceira estratégia: a tolerância à infecção.

Miguel Soares, do Instituto Gulbenkian de Ciência (Portugal), Ruslan Medzhitov, da Universidade de Yale e David Schneider, da Universidade de Stanford (EUA), propuseram esta terceira via em um artigo publicado na revista Science nesta semana.

Tolerância à infecção

A tolerância à infecção é um fenômeno no qual o hospedeiro infectado se protege contra a infecção reduzindo os efeitos nocivos causados quer pelo patógeno, quer pela resposta imunológica montada pelo próprio organismo contra o invasor.

Os três cientistas defendem que o conhecimento dos mecanismos subjacentes a este fenômeno de tolerância pode abrir caminho para o desenvolvimento de novas terapias de combate a várias doenças infecciosas.

Após invasão de um organismo por agentes patogênicos (bactérias, vírus ou parasitas), o sistema imunológico entra em ação: detecta, destrói e, em última análise, elimina o patógeno.

Este fenômeno, chamado de "resistência à infecção", é essencial na proteção do hospedeiro contra infecções, mas acarreta muitas vezes danos colaterais a alguns dos órgãos vitais do hospedeiro (fígado, rim, coração, cérebro).

Se não forem controlados, os danos causados nestes tecidos poderão ter consequências mortais, como acontece na malária grave, na sepsis grave e, possivelmente, em outras doenças infecciosas.

Já a tolerância à infecção, uma ação "menos drástica" do que a resistência à infecção, reduz o impacto prejudicial da infecção e da resposta imunológica subsequente sobre o hospedeiro.

Terapias fadadas ao fracasso

Em estudos em animais e em humanos, a resistência à infecção é geralmente o único mecanismo tido em conta quando há infecção.

Desta forma, sempre que um hospedeiro sucumbe a uma infecção, tal resultado é atribuído a deficiências do sistema imunológico.

Os cientistas agora sustentam que não se deve generalizar essas conclusões, e sublinham a importância de se distinguir entre falha na resistência e falha na tolerância quando se analisa a causa da morbidade e mortalidade resultante de doenças infecciosas.

Tal distinção definirá qual a abordagem terapêutica a escolher.

Quando o problema principal é falha da tolerância, reforçar o sistema imunológico ou administrar antibióticos de nada adiantará.

Nestes casos, seria provavelmente mais eficaz melhorar a tolerância, tanto no combate às infecções e doenças inflamatórias, quanto no caso das doenças auto-imunes.

Tolerância às doenças infecciosas

Embora seja um fenômeno bem conhecido na imunologia de plantas, a tolerância à infecção em mamíferos, incluindo humanos, tem recebido pouca atenção.

Apesar do muito que ainda falta conhecer sobre como e em que circunstâncias a tolerância à infecção é empregada pelo hospedeiro, quase tudo o que se sabe sobre os mecanismos moleculares subjacentes a esta estratégia de defesa do hospedeiro foi descoberto no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Portugal, pelo grupo liderado por Miguel Soares.

A equipe portuguesa está interessada em identificar os mecanismos de tolerância específicos a cada doença, e em desvendar as estratégias gerais de tolerância que poderão, possivelmente, ser empregues como proteção do hospedeiro contra infecções futuras.


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