Tuberculose e HIV estão mais interligados do que se imaginava

Tuberculose e HIV estão mais interligados do que se imaginava
Número de infectados pelo HIV que morre de tuberculose é maior do que se estimava, revela relatório global da OMS. Brasil passou de 16º para 18º no ranking da doença
[Imagem: Fapesp]

Declínio da tuberculose

A 13ª edição do relatório global do controle de tuberculose, feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS), traz uma boa e quatro más notícias, segundo Mario Raviglione, diretor da Stop TB Partnership, iniciativa conduzida pela OMS e por instituições de dezenas de países responsável por colocar a doença na agenda política mundial.

A boa notícia, disse Raviglione nesta terça-feira (24/3), no 3º Fórum Mundial de Parceiros Stop TB, realizado no Rio de Janeiro, é que o número de casos de tuberculose tem declinado desde 2004.

Notícias ruins

A primeira má notícia é que a queda na taxa de incidência é lenta - menos de 1% ao ano. As outras três são: a proporção de novos casos detectados tem se mantida no patamar de 63%; 10% dos infectados são resistentes a quase todos os remédios existentes; e o número de pessoas que morrem de tuberculose, mesmo infectadas pelo vírus HIV, é maior do que se estimava.

Tuberculose e HIV

O relatório revela que uma em cada quatro mortes por tuberculose está relacionada com o vírus da Aids, o dobro do que se pensava. "Usando dados da África, percebemos que 1,4 milhão de casos são decorrentes do HIV. Até um ano atrás, estimávamos que havia 700 mil", contou Raviglione.

"Nossas ações a partir de agora têm que estar vinculadas a esta abordagem. Deve haver uma integração no tratamento do HIV e da tuberculose", disse o pesquisador italiano.

O novo relatório também revela que 9,3 milhões de pessoas estariam infectadas hoje em dia no mundo, mas apenas 5,4 milhões desses casos estão registrados oficialmente.

"Na África, como essas pessoas são detectadas como HIV positivos, a Aids aparece como a causa da morte, mas, na realidade, elas morrem por conta da tuberculose. Descobrimos que um terço dos casos estimados no mundo nunca foi detectado", salientou.

Multirresistência às drogas

A multirresistência às drogas é outra questão apontada pelo relatório. Houve um aumento de 500 mil casos de resistência aos medicamentos hoje existentes em relação ao registrado no último informe da OMS. "Como são os mais difíceis de serem tratados, esses são os casos mais fatais. O problema é que 10% dos novos casos detectados são resistentes a quase todos os remédios", disse.

Foram registrados casos de multirresistência às terapias em 55 países. No Brasil, a taxa é de 1,4%, baixa em relação aos demais. Entretanto, o país continua na lista dos 22 países com o maior número de casos, ao lado da Índia, China, Afeganistão, Quênia, Nigéria, Zimbábue, África do Sul e Paquistão, entre outros. Outros países sul-americanos também figuram nessa relação: Argentina, Colômbia, Peru, Equador e Chile.

BCG para adultos

Mesmo assim, segundo Raviglione, a situação do Brasil melhorou muito em relação aos anos anteriores. "As notificações estão caindo e o país está seguindo os parâmetros recomendados pela OMS, enquanto outros países não estão realizando tais estratégias", afirmou.

Na opinião de Raviglione, embora o declínio observado no número de novos casos da doença seja lento - menos de 1% ao ano - também não deixa de ser importante. "É um efeito dos esforços que têm sido feitos e das políticas públicas que os governos têm adotado em função das recomendações da OMS", disse o diretor da Stop TB Partnership.

Para ele, no entanto, é como se o mundo estivesse em uma nova guerra, lutando com armas do século passado. "Precisamos de novas drogas. A vacina BCG, direcionada somente para crianças, foi lançada em 1922, e não é eficaz em adultos. A pesquisa para a tuberculose também não tem sido priorizada, foi abandonada há 30 anos. Ainda estamos usando medicamentos da década de 1950", destacou.

Tuberculose no Brasil

O Brasil vem caindo no ranking dos países de maior incidência da doença - da 14ª posição passou para a 16ª em 2007 e, agora, segundo o novo relatório da OMS, ocupa a 18ª.

Para Dráurio Pereira, do Programa Nacional de Controle da Tuberculose, a avaliação é positiva, embora discorde dos valores apresentados pelo relatório, segundo o qual o Brasil teria 92 mil casos da doença, quando,de acordo com o Ministério da Saúde, o total seria 72 mil. "Mas eles trabalham com estimativas para todos os países", disse à Agência FAPESP.

Sobre a nova posição do país no ranking da incidência da doença, Pereira afirma que era esperado. "Já estávamos diminuindo de posição. Talvez em cinco anos, sairemos da lista dos 22. Mas se eles levassem em conta o indicador de numero de casos dividido pela população, cairíamos para a 108ª. Como eles são guiados pelo numero de casos, países superpopulosos como China e Índia sempre ocupam as primeiras posições", questionou.

Sobre os efeitos da coinfecção TB/HIV, Dráurio também afirmou não ser novidade para o Brasil. "Não fomos surpreendidos, uma vez que já estamos atentos a isso há algum tempo: 70% dos pacientes com tuberculose em nosso país fazem teste de HIV", afirmou.


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