Vacina contra AIDS é impulsionada por técnica brasileira

Pacientes com HIV mas sem AIDS

Uma nova técnica que pode levar à produção de uma vacina contra a AIDS foi desenvolvida com a participação de cientistas do Instituto Oswaldo Cruz.

A pesquisa está em destaque na edição mais recente da revista Nature.

A descoberta, que representa uma nova abordagem no combate à doença, envolve o estudo de casos de pessoas que contraíram o vírus HIV mas desenvolveram a AIDS.

Até o momento, a maior parte das pesquisas vem centrando esforços em produzir vacinas contra a AIDS com a utilização de anticorpos.

Célula matadora

O foco do estudo é a célula T CD8, uma célula do Sistema Imunológico conhecida como célula matadora, encarregada de eliminar vírus e outros componentes invasores.

Em algumas pessoas, as células T CD8 têm a capacidade de matar as células CD4 contaminadas pelo vírus HIV.

O trabalho foi liderado pelo pesquisador David Watkins, da Universidade de Miami (EUA), que atualmente trabalha em conjunto com os pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Myrna Bonaldo, Ricardo Galler e Marlon Santana, além do brasileiro Maurício Martins, que faz parte de sua equipe nos Estados Unidos.

"Descobrimos que um grupo de humanos, raros, está controlando a replicação do vírus [HIV]. Estão infectados, mas não têm a doença. Isso acontece em uma de cada 300 pessoas infectadas. Nós queremos entender como essas pessoas estão controlando o vírus, porque, talvez, possamos desenvolver uma vacina", explicou Watkins.

"Antes dessa descoberta, não havia certeza do que acontecia nos casos humanos em que o vírus era controlado. Nossa pesquisa dá uma grande dica de que são as T CD8 matadoras os responsáveis por isso", completou.

Técnica brasileira

O estudo do cientista norte-americano ganhou força com um método patenteado pela Fiocruz em 2005, desenvolvido por Myrna Bonaldo.

A pesquisadora desenvolve novas vacinas utilizando a vacina contra a febre amarela como uma plataforma básica, na qual se introduz modificações genéticas que poderão imunizar contra outras doenças.

A estratégia foi utilizada em dois grupos de macacos Rhesus: parte deles recebeu compostos indutores de produção de células T CD8 protetoras e outra parte não. Depois, todos os macacos foram inoculados com o vírus SIV, semelhante ao HIV.

Os que receberam os indutores de produção da T CD8 apresentaram importante redução na replicação do vírus. Em relação ao grupo que não recebeu o composto, chamado controle, a replicação viral foi reduzida em mais de 50 vezes.

"Estamos tentando entender como essas células matadoras em particular são tão eficientes para conter o vírus", disse Watkins, que prefere não fazer uma previsão sobre a fabricação de uma vacina baseada no processo:

"Eu não quero dar falsas esperanças. Há 30 anos, quando o vírus foi descoberto, chegaram a dizer que haveria uma vacina em dois anos, o que não aconteceu. Nós temos muitas pessoas trabalhando duro nessa pesquisa. Agora, infelizmente, ainda vai levar muito tempo para desenvolver uma vacina. Este vírus [HIV] é muito difícil, muito variável," concluiu.


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