Vacina contra a febre reumática será testada em humanos

Febre reumática

Uma vacina contra a febre reumática - doença inflamatória que acomete pessoas geneticamente suscetíveis após uma infecção bacteriana - deve começar a ser testada em seres humanos ainda este ano por pesquisadores do Instituto do Coração (InCor), da Universidade de São Paulo (USP).

Experimentos feitos em roedores e em pequenos porcos sugerem que o imunizante é seguro e tem capacidade de induzir uma resposta imunológica específica contra a bactéria Streptococcus pyogenes.

Na maioria dos infectados, esse patógeno causa apenas dor de garganta. Em crianças predispostas, porém, o contato com a S. pyogenes pode desencadear um quadro autoimune. Na tentativa de se defender da bactéria, o sistema imunológico começa a atacar tecidos do próprio organismo - o coração é o principal alvo.

A doença também pode causar um quadro de dor nas articulações conhecido como poliartrite, que costuma melhorar com o tempo. Mas as lesões nas válvulas cardíacas são progressivas e permanentes - levando, cedo ou tarde, à necessidade de cirurgia corretiva.

"Quando o paciente é operado pela primeira vez ainda criança, a chance de precisar passar por várias cirurgias ao longo da vida é grande. Por isso a febre reumática é uma das doenças com tratamento mais caro no Brasil e no mundo," explica Luiza Guilherme, pesquisadora do InCor e coordenadora da pesquisa.

Estima-se que apenas 3% ou 4% das pessoas sejam suscetíveis a desenvolver doença autoimune após a infecção pela S. pyogenes. Ainda assim, o custo do tratamento da febre reumática para o Sistema Único de Saúde (SUS) fica atrás apenas do gasto com a AIDS.

No InCor, onde são atendidos cerca de 600 pacientes com a doença reumática cardíaca por mês, 2 mil pessoas estão na fila para fazer a cirurgia valvular. Quase 40% dos operados são crianças.

Vacina contra febre reumática

A busca por um antígeno da bactéria capaz de induzir uma resposta imunológica protetora começou no ano 2000.

"O primeiro passo foi definir o epitopo, ou seja, o fragmento mínimo da bactéria capaz de induzir uma resposta imunológica. Para isso, analisamos o soro de indivíduos normais, que tiveram contato com a bactéria e não desenvolveram a doença autoimune. A ideia era descobrir com qual parte da bactéria o organismo reagia", contou Luiza.

Dentro da chamada proteína M - molécula secretada pela parede externa da bactéria - os cientistas identificaram um grupo de 55 resíduos de aminoácidos capazes de serem reconhecidos pelos anticorpos e linfócitos do sistema imunológico humano.

Uma versão sintética da sequência de aminoácidos foi produzida em laboratório e injetada em diversos modelos de estudo com camundongos.

"A ideia era mimetizar a suscetibilidade genética ao quadro autoimune presente em certos pacientes humanos e avaliar a segurança da vacina. Acompanhamos os animais durante um ano e observamos que o imunizante não induziu nenhum tipo de lesão ou alteração nos órgãos", contou Luiza.

Testes posteriores com os roedores indicaram que a vacina induziu a produção de grandes quantidades de anticorpos específicos contra a S. pyogenes.

"Com esses resultados em mãos, estamos prontos para iniciar estudos de fase 1 em humanos. Apenas aguardamos a liberação do financiamento pré-aprovado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)", contou Luiza.


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