Validade de remédios e cosméticos: O que é mito e o que é verdade?

Validade de remédios e cosméticos: O que é mito e o que é verdade?
Autoridades de saúde dos EUA descobriram que alguns medicamentos continuam funcionando anos depois de ultrapassar sua data de vencimento.
[Imagem: Wikipedia]

Validade de medicamentos

Jogar fora medicamentos e cosméticos com prazo de validade vencido, especialmente os mais caros, nunca é uma tarefa fácil.

Há muitos argumentos a favor e contra. Veja abaixo o que os especialistas afirmam a respeito dos comentários mais comuns.

1) O prazo de validade é uma estratégia comercial dos laboratórios para que compremos mais

A legislação de todos os países exige que remédios comercializados tenham prazo de validade. O cálculo é feito após estudos sobre a estabilidade química dos princípios ativos que compõem o medicamento.

"Há alguns anos, a Organização Mundial da Saúde decidiu que os prazos de validade não deveriam superar cinco anos," lembra o Dr. José Ramón Azanza, diretor de farmacologia da Universidade Clínica de Navarra, na Espanha. Segundo ele, o mais comum é a data de vencimento de dois anos.

Contudo, recentemente a agência FDA dos EUA (Food and Drug Administration) fez um estudo, a pedido das Forças Armadas daquele país, para verificar a condição das toneladas de medicamentos que os militares precisavam jogar fora todos os anos. A conclusão foi que 90% dos mais de 100 remédios analisados ainda estava em perfeitas condições de uso mesmo depois de passados até 15 anos da data de validade - uma rara exceção, ainda que controversa, parece ser a tetraciclina.

Comentando os resultados, a Escola Médica da Universidade de Harvard afirmou: "Será a data de vencimento uma manobra de marketing dos fabricantes de medicamentos para mantê-lo reabastecendo seu armário de remédios (...) regularmente? Você pode olhar ver a coisa desta maneira." Mas também pode vê-la, continua a análise, como uma garantia de que você poderá contar com o efeito integral do medicamento que você está comprando. Aqui no Brasil, um estudo realizado na USP mostrou que alguns medicamentos podem se degradar ainda no prazo de validade.

A médica Inmaculada Posadas, da universidade espanhola de Castilla-La Mancha afirma que a lei se aplica mesmo se o laboratório produzir fórmulas que resistam mais tempo: "Podem existir medicamentos que continuem funcionando após a data de validade, mas a legislação os impede de dizer isso."

2) Se tomo um remédio vencido, posso passar mal

O que acontece a um remédio vencido? "Normalmente nada," disse Azanza. "Se alguém toma um remédio depois do vencimento, nada vai acontecer. São raríssimos os remédios que podem produzir efeitos tóxicos em pacientes após a data de validade expirar".

O maior risco é que o remédio não produza o efeito esperado - é uma questão muito mais de eficácia do que de tolerância.

Azanza alerta, contudo, que nunca se pode ter certeza absoluta de que medicamentos vencidos sejam inofensivos. A razão é simples: os organismos nacionais e internacionais que regulamentam a produção e comercialização de remédios não realizam estudos sobre os efeitos pós-vencimento, mas em sua eficácia durante sua vida útil.

Outra razão para respeitar a data de validade é no caso de medicamentos de uso sistemático, em especial os que mantêm a qualidade de vida de um paciente. "Se, nesses casos, não respeitarmos a data de validade, o efeito negativo sobre o paciente pode ser muito grave. Por isso, é melhor termos uma data-limite e estarmos seguros de que o medicamento será eficaz no tratamento de condições mais graves," adverte Inmaculada.

A FDA alerta sobretudo para o risco do uso de antibióticos degradados, que "correm o risco de estimular a produção de bactérias, e antibióticos com potência reduzida podem não atacar as infecções, desencadeando doenças mais graves e aumentando a resistência ao remédio".

3) Aspirinas vencidas não representam risco algum

De acordo com Inmaculada, a aspirina não deve ser utilizada muito tempo depois da data de validade porque a degradação do princípio ativo da aspirina, o ácido acetilsalicílico, forma outra substância, o salicilato, que é abrasivo e não deve ser consumido por via oral.

"Não há problema em consumir uma aspirina poucos dias depois da validade, mas em seis meses a quantidade de salicilato contida no comprimido é suficientemente alta para ser tóxica," explica ela.

4) Um medicamento pode perder sua eficácia antes da data de validade

"Remédios contêm substâncias químicas estáveis e instáveis, dependendo de sua composição e do meio em que se encontram", disse Azanza.

Fatores como umidade, temperatura e a incidência de luz solar podem reagir com essas substâncias e modificar suas estruturas químicas. Os laboratórios garantem que um medicamento funcionará durante um determinado período de tempo, mas com um importante alerta: que seja armazenado nas devidas condições.

"Se o medicamento está em um entorno com mais umidade e calor que os testados em laboratório, por exemplo, ou que tenha sido exposto à luz, nada pode assegurar que a data de validade estará valendo," disse o farmacologista.

É importante, então, ler cuidadosamente a bula para saber como se devem guardar os medicamentos.

5) Vitaminas não precisam dos mesmos cuidados

Precisam, sim. O princípio é o mesmo.

"Quando o laboratório vende um composto vitamínico, ele assegura que as vitaminas funcionarão como esperado: desde o primeiro dia ao último," assinala Inmaculada.

Depois do prazo, pode haver alterações na fórmula e perda de efeito.

6) Um creme que não seja aberto funcionará depois da data de validade

"Um creme faz parte da legislação sobre produtos sanitários e tem uma data de vencimento que nos diz que, até aquele momento, terá suas propriedades adequadas", enfatiza Inmaculada. "Mesmo que não seja aberto, o creme tem ingredientes que também contam com um prazo de validade médio."

E como explicar a situação na qual, depois de muito tempo sem ser usado, um tubo de creme expele uma espécie de óleo amarelado quando o abrimos? "É um sinal de que o creme ficou tanto tempo sem ser usado que sua base ficou de um lado e o medicamento de outro. Pode ser usado? Talvez não vá causar danos, mas sua eficácia poderá não ser a mesma", diz Azanza.

7) Colírios devem ser jogados fora mesmo ainda na data de validade

Muitos colírios não contêm conservantes para evitar problemas de irritação ocular, explica Azanza. Isso significa que, quando seus frascos são abertos, devem ser usados conforme orientação médica e jogados fora depois do tratamento, ainda que estejam dentro do prazo de validade.

De acordo com Azanza, o mesmo colírio não serve para o mesmo paciente, inclusive nos casos em que o problema original volte a se manifestar, pois a solução pode estar contaminada com bactérias e mesmo fungos por causa do contato com o ar.


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