Vírus do Oeste do Nilo aparece no Brasil pela primeira vez

Febre do Nilo

Um estudo pioneiro do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) confirmou a presença do vírus do Oeste do Nilo (WNV, na sigla em inglês) no Brasil.

A pesquisa encontrou evidências sorológicas em cavalos do Pantanal.

Causador da febre do Oeste do Nilo, preocupação constante em países do continente africano e asiático, o vírus pode infectar humanos e animais e é transmitido através da picada de mosquitos que tenham se alimentado de aves infectadas, geralmente migratórias.

No continente americano, a doença chegou no final da década de 90 nos Estados Unidos e se espalhou rapidamente pelas Américas do Norte e Latina.

Da África para a América

Há relatos recentes de evidências de atividades sorológicas do vírus na Colômbia, Venezuela e especialmente na Argentina, onde anticorpos do vírus foram detectados em aves.

O WNV foi isolado pela primeira vez na América do Sul a partir da análise de cavalos mortos por encefalite na Argentina, em 2006.

O pesquisador Alex Pauvolid-Corrêa, que realizou o estudo, falou sobre a importância da investigação para a vigilância epidemiológica da doença no país e aponta os desafios a serem enfrentados para controlar a circulação do vírus na região onde a houve a confirmação de sua presença e, consequentemente, em outras regiões do Brasil.

Evidências sorológicas foram encontradas em cavalos do Pantanal. Além desses animais, outros reservatórios foram analisados? A investigação será estendida aos pássaros?

De acordo com o que vem sendo descrito em outros países onde há circulação de WNV, a busca por eventuais hospedeiros amplificadores de WNV no Brasil deve continuar sendo baseada em amostras de aves de áreas reconhecidas como rotas de migração para algumas espécies.

A pesquisa deverá envolver não somente a pesquisa em espécies migratórias, como também em espécies residentes destas regiões que compartilham as mesmas condições ecológicas locais.

A vigilância por WNV em aves que circulam no Pantanal seria muito importante, considerando as evidências sorológicas da circulação de WNV em equinos da região. A detecção de mortandade de diferentes espécies de aves foi utilizada como um importante marcador da circulação de WNV nos EUA.

Entretanto, no momento, nossas análises estão sendo direcionadas para a tentativa de isolamento viral a partir de amostras de mosquitos coletados no Pantanal em diferentes períodos e anos.

A hipótese dos jacarés estarem infectados está descartada?

Não há evidência sorológica da circulação de WNV em jacarés do Pantanal.

Entretanto, considerando as características biológicas da espécie na região, a sua intensa e constante presença durante os distintos períodos de seca e cheia, o que permite aos indivíduos um contato contínuo com populações de diversas espécies de potenciais vetores, bem como as evidências de que indivíduos jovens de aligator americano quando em altas concentrações podem participar como hospedeiros amplificadores no ciclo de transmissão de WNV em algumas regiões do EUA, estudos mais abrangentes envolvendo jacaré do Pantanal precisam ser conduzidos para descartar sua eventual participação no ciclo de transmissão de WNV na região.

O vírus não foi encontrado nos mosquitos analisados. Qual a explicação para este fato?

A detecção de arbovírus em mosquitos é difícil, mesmo em espécimes capturados durante epidemias. Normalmente, apenas um percentual muito pequeno dos grupos de mosquitos avaliados em um estudo é positivo.

Considerando-se que na região existe uma grande flutuação das populações de mosquitos de diferentes espécies de acordo com a época do ano, um estudo mais abrangente envolvendo a captura de um maior número de espécimes em diferentes períodos e anos foi conduzido. As análises destas novas amostras estão em andamento para um melhor estudo da circulação viral em diferentes espécies de potenciais vetores.

Quais espécies serviriam como vetores da doença no país?

Não há como precisar quais as espécies de culicídeos serviriam como vetores de WNV no país, uma vez que o vírus tem sido reportado em muitas espécies de diferentes gêneros em áreas onde há circulação viral.

Além disso, a detecção das espécies de vetores envolvidas em ciclos de transmissão de WNV nas Américas Central e do Sul não é comumente reportada.

Entretanto, as espécies do gênero Culex, que incluiu o pernilongo comum, têm apresentado maior relevância no ciclo de transmissão de WNV em outras regiões, principalmente nos EUA.

Qual é o risco do vírus causar surtos ou até epidemias como as que já ocorreram no Hemisfério Norte? Existe algum fator que poderia alterar o perfil de propagação do vírus?

Estabelecer um risco para a ocorrência de surtos ou epidemias por arbovírus em um bioma, como o do Pantanal, que apresenta tantas características ecológicas peculiares e próprias, é difícil.

Entretanto, considerando alguns fatos observados em outros modelos de transmissão vetorial de diferentes biomas, a degradação ambiental através do desflorestamento, plantação de pastos exóticos e modificação de coleções de água para atender a demanda da pecuária local poderiam alterar as sensíveis relações ecológicas em equilíbrio na região, o que poderia favorecer determinadas espécies potencialmente vetoras e consequentemente ser considerado como um fator de risco para a ocorrência ou intensificação de casos clínicos causados por infecção por arbovírus na região, principalmente em populações animais como equinos e aves, considerando a baixa densidade demográfica da região.

Até o momento, a evidência sorológica da circulação de WNV no Brasil se restringe a uma determinada área do Pantanal brasileiro. Entretanto considerando-se a ocorrência de ciclos de transmissão de WNV em diferentes áreas urbanas nos EUA, a vigilância para a circulação de WNV em áreas urbanizadas no Brasil também precisaria ser considerada.


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