12/08/2008

Profissionais devem repensar ações contra violência doméstica

Agência USP

Posições mais humanas contra a violência

Pesquisas feitas na USP apontam que os profissionais que atuam nas diferentes áreas com a questão da violência doméstica precisam repensar suas ações e tomar posições mais humanas e assertivas para garantir os direitos de cidadãos, das crianças e adolescentes e também de suas famílias.

O trabalho foi feito junto ao Programa de Assistência Primária de Saúde Escolar (Proase), da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP). Foi mapeada a violência doméstica a partir de estudos com dados coletados nas cidades de Ribeirão Preto, Jardinópolis, São Carlos, Guarulhos, no Estado de São Paulo, em Rondônia e em Goiás.

Carregando a violência como agressividade

Segundo Maria das Graças Bomfim de Carvalho, uma das coordenadoras do trabalho, "ao iniciarmos as pesquisas detectamos muitas crianças e adolescentes com sofrimento de violência física e tivemos a idéia de um projeto de pesquisa científica ampliado para detectar essa violência no contexto familiar".

A professora relata que quando a criança vai para a escola ela leva essa violência na forma de agressividade.

O estudo detectou crianças com inúmeras marcas no corpo e até queimadas de cigarro pela própria mãe. "A partir dessa identificação no ambiente escolar é que o projeto foi ampliado e os focos passaram a ser a violência física, abusos sexuais e a negligência, também os mais encontrados na literatura", diz Maria das Graças. "Surgiu ainda a necessidade de nos aprofundarmos nas questões de políticas públicas."

Violência familiar não é questão de pobre

Os resultados do estudo mostraram que a violência no contexto familiar é bastante antiga, mas só agora a mídia está dando ênfase e explorando o assunto.

"Ficou evidente que, também baseada na literatura, a pobreza não é determinante da violência domiciliar", ressalta a pesquisadora. "Deve-se considerar as questões sociais, culturais, psicológicas para não delimitarmos a violência a uma determinada classe social eminentemente pobre, com prejuízo para essa camada da população".

Participação da sociedade

Outra questão analisada foi a participação da sociedade na identificação da criança e do jovem que sofre violência doméstica. "A própria situação da criança ou adolescente denuncia a sua condição. Eles estão sempre acuados, não apresentam rendimento adequado na escola, ficam praticamente deprimidos e, ainda, muitos se mostram agressivos com os colegas. Essas são mostras de sofrimento de violência doméstica. É importante a sociedade ficar atenta a essas atitudes".

A pesquisadora lembra que nos abrigos essas crianças e adolescentes demonstram não querer voltar para suas casas. "As atitudes das crianças e dos adolescentes revelam o que eles sofrem", acrescenta.

Prevenção da violência doméstica

Sobre as políticas de prevenção, Maria das Graças, afirma que desenvolver trabalhos só com a criança ou o adolescente pode não resolver. "É fundamental inserir a família nessas ações". Para a professora, a família, atualmente, ganhou outros contornos, com diferentes constituições, como padrastos, madrastas, ou só composta por mãe que, muitas vezes, precisa cumprir papel duplo, de pai e mãe, e ainda ser responsável pelo sustento da família. "Essa dupla função e toda a responsabilidade pode levá-la a um 'super-estresse', o que pode ser um fator de desencadeamento da violência".

O abuso sexual, também passa pela problemática da sustentação econômica. "O agressor pode ser quem mantém a família e a mãe acaba tendo medo de denunciá-lo e perder o sustento". Outro fator relevante detectado são os programas e filmes violentos disponíveis nas tevês e que, muitas vezes, são o único lazer de famílias que também não controlam o que é visto pelas crianças e jovens. "Tanto as pesquisas como dados na literatura revelam que esse é um fator que pode desencadear a violência", afirma a professora da EERP.

Publicação de livro

Para Maria das Graças, a escola pode colaborar na prevenção, além de toda uma rede de apoio em que a família é protagonista, mas os órgãos governamentais e não-governamentais (Ongs) e outros grupos em que as crianças participam, também têm papel importante. "Nosso trabalho também tem sido o de ficar próximo aos Conselhos Tutelares para entender como trabalham e como podem nos ajudar a compreender a situação de violência doméstica", destaca. "Precisamos de uma rede muito maior para evitar a violência. As pesquisas, por outro lado, precisam resultar em ações para evitar esse quadro".

As pesquisas do grupo resultaram no livro Debaixo do mesmo teto - Análise sobre a violência doméstica".(Editor AB, 304 páginas, R$ 59,50) organizado pelos professores Maria das Graças Bonfim de Carvalho e Marta Angélica Iossi Silva, da EERP, Marcelo Medeiros, da Universidade Federal de Goiás (UFG) e Elza Maria Lourenço Ubeda, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A obra descreve as pesquisas do Núcleo de Estudos, Ensino e Pesquisa do Proase e do projeto temático A criança e o adolescente alvos de atos violentos ou vítimas potenciais da violência, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

 

Fonte: Diário da Saúde - www.diariodasaude.com.br

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