
Descrença com a ciência
O progresso científico continua em um ritmo sem precedentes desde o fim das guerras mundiais do século passado, mas a confiança pública na ciência está em declínio. Depois de um longo e lento desenvolvimento, em poucas décadas nossa espécie criou computadores que cabem na palma da mão e estendeu a expectativa de vida humana além do que nossos ancestrais poderiam ter imaginado. E, ainda assim, movimentos anti-intelectuais ganham força, com ignorância e agressividade tentando anular quaisquer argumentos ou mesmo comprovações experimentais.
O problema é complexo, mas entre as prováveis causas mais citadas estão a falta de educação formal e falhas na comunicação da ciência para a população em geral.
O professor Dariusz Jemielniak, da Universidade de Kozminski (Polônia), acredita que essas análises estão erradas: A proposta dele é que estamos testemunhando e vivenciando algo muito mais complexo, uma mudança fundamental na forma como a sociedade se relaciona com o próprio conhecimento.
"Entramos em um período em que a relação entre informação e verdade se tornou fundamentalmente contestada," defende ele. "As tecnologias que prometiam democratizar o acesso ao conhecimento também democratizaram o acesso à falsidade."

Corrosão da confiança na ciência
O pesquisador identificou vários fatores complexos por trás do declínio na confiança na ciência e nos cientistas, incluindo escândalos de influência corporativa, casos de fraude amplamente divulgados, retratações de artigos científicos e o enorme volume de informações científicas produzidas atualmente.
Cada um desse fatores por si só não é suficiente para explicar a corrosão da confiança pública na ciência, mas então eles se combinaram com uma tempestade perfeita de infraestrutura digital que incentiva o compartilhamento rápido de informações que precisam chamar a atenção para não caírem no esquecimento - numa palavra, sensacionalistas.
Os algoritmos das redes sociais amplificam alegações sensacionalistas independentemente de sua veracidade, enquanto as câmaras de eco facilitam a busca por comunidades que validam praticamente qualquer crença.
"A proliferação das plataformas digitais permitiu que a desinformação se espalhasse rapidamente, dificultando a capacidade do público de discernir informações confiáveis, contribuindo para essa erosão da confiança," comentou Jemielniak. "O que é historicamente distintivo é a infraestrutura contemporânea que acelera esses ciclos, recompensando a indignação, simplificando disputas complexas em sinais de identidade e transformando conflitos epistêmicos em conteúdo."

Então, o que fazer?
A solução, argumenta Jemielniak, não é mais educação científica e nem melhor comunicação - na verdade, décadas de pesquisa mostram que fornecer mais informações tipicamente não muda atitudes ou comportamentos. As barreiras são psicológicas, sociais e culturais, e não apenas informacionais.
"A diferença entre um pai hesitante em vacinar seu filho e um cientista climático não é que um confia na ciência e o outro não," argumenta ele. "É que eles estabelecem os limites da confiança em lugares diferentes e por razões diversas."
Compreender essas razões, que podem incluir preocupações legítimas sobre a influência da indústria farmacêutica ou fracassos científicos do passado é essencial para reconstruir a confiança. Isso exigirá uma reformulação fundamental da maneira como a ciência interage com o público, reconhecendo que a confiança deve ser conquistada, não exigida.
Como as plataformas de mídia social são projetadas para maximizar cliques e reações emocionais, em vez da verdade, resolver o problema da desinformação exige responsabilizar essas empresas, tornar os anúncios políticos transparentes e apoiar o jornalismo de qualidade.
"Uma sociedade que não consegue chegar a um consenso sobre fatos empíricos básicos - que carece de pontos de referência comuns para avaliar afirmações sobre o mundo - enfrenta profundas dificuldades para se autogovernar democraticamente. A politização da ciência, portanto, não é meramente um problema de comunicação científica ou mesmo um problema político, mas um desafio aos fundamentos epistêmicos da autogovernança democrática," concluiu Jemielniak.
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