14/09/2026

Encontrando um sentido: Como percebemos eventos extraordinários

Redação do Diário da Saúde
Encontrando um sentido: Como percebemos eventos extraordinários
Os eventos extraordinários ocorrem com mais frequência em momentos completamente comuns, com a pessoa acordada e alerta, sendo geralmente lembrados como significativos, e não assustadores.
[Imagem: blueberrykings111!/Pixabay]

Experiências não-ordinárias

Pesquisadores brasileiros conduziram um amplo estudo com mais de 5 mil pessoas para entender como a população em geral interpreta eventos que os cientistas chamam de "experiências não-ordinárias", como coincidências improváveis (sincronicidade), experiências fora do corpo e percepção extrassensorial.

Eles também analisaram quais avaliações dessas vivências estão associadas a melhores desfechos psicológicos.

Os resultados mostram que 25% dos entrevistados relataram sofrimento ou desconforto imediatamente após a experiência, mas 51% afirmaram que o evento promoveu efeitos positivos de longo prazo, indicando que o mesmo tipo de vivência pode ter impactos profundamente diferentes dependendo de como é interpretado.

Independentemente de as experiências não-ordinárias serem enquadradas como religiosas, espirituais, paranormais ou patológicas, os indivíduos afetados podem tirar proveito ou apresentar sofrimento após o ocorrido. Este estudo explorou como os indivíduos interpretam essas experiências não-ordinárias e quais avaliações estão associadas aos melhores resultados.

Riqueza de interpretações

Os resultados revelaram um quadro complexo:

  • 20% dos participantes relataram um impacto negativo decorrente de sua experiência, e 25% relataram sofrimento ou desconforto.
  • 51% dos participantes afirmaram que sua experiência promoveu efeitos positivos a longo prazo.
  • Cerca de 39% dos participantes relataram estar sozinhos durante a experiência. Cerca de 57% relataram estar acordados e alertas.
  • A maioria dos participantes atribuiu sua experiência ao acaso.
  • A maioria dos participantes relatou ter algum grau de controle sobre a experiência.

Eventos não-ordinários podem ser interpretados de inúmeras maneiras: Talvez a Pessoa A encontre a religião em uma experiência de quase-morte, enquanto a Pessoa B descarte o ocorrido como mera coincidência. Em algumas culturas, experiências não-ordinárias (como ouvir vozes) são percebidas como sobrenaturais, enquanto em outras é vista como sintoma de psicose.

O estudo também serviu para validar primeiro o Inventário de Experiências Não-Ordinárias, um questionário com 47 perguntas que avalia dimensões universais, culturais e religiosas dessas vivências. Esse questionário deverá ajudar a projetar estudos futuros que sejam mais diretamente comparáveis entre si.

"O que nos impressionou foi a discrepância. Essas experiências compartilham características com os sintomas usados para definir psicose e dissociação, mas são frequentemente observadas em amostras da população em geral. Nosso estudo de prevalência sugere que elas ocorrem com mais frequência em momentos completamente comuns, quando estamos acordados, alertas e sozinhos, e são geralmente lembradas como significativas, em vez de assustadoras," disse o professor Pedro Fortes, do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, em São Paulo.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Making sense of the extraordinary - An investigation of the content and prevalence of appraisals of nonordinary experiences
Autores: Pedro Fortes, Luiza Tavares, Gustavo Granjeiro, Giovanna Bortolini, Everton Maraldi, Tiago Bortolini, Larissa Hartle, Maria Lima, Maria Laport, Jorge Moll, Ronald Fischer
Publicação: PLoS ONE
DOI: 10.1371/journal.pone.0353126
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