
Multimorbidade
A expectativa de vida humana quase dobrou nos últimos 100 anos, graças a avanços na ciência básica, na medicina e na saúde pública.
Essa maior expectativa de vida, no entanto, traz consigo um risco maior de desenvolver múltiplas doenças crônicas simultaneamente. Embora se saiba que essa assim chamada multimorbidade esteja associada a piores desfechos de saúde - incluindo aumento de hospitalizações, visitas ao pronto-socorro e incapacidade -, o modo como as combinações de condições específicas e variáveis afetam a saúde das pessoas ainda é pouco compreendida.
Em busca desse conhecimento, os cientistas trabalham há décadas na identificação de padrões matemáticos fundamentais que possam explicar essa conjunção de fatores, estudando para isso uma ampla gama de populações, de bactérias e insetos até árvores, peixes e, claro, seres humanos.
Na última versão desse esforço, Joel Cohen e colegas da Universidade Rockefeller (EUA) envolveram mais de 238.000 adultos em um estudo com o objetivo de procurar padrões matemáticos subjacentes na multimorbidade, que possam ajudar a melhorar as diretrizes de prática clínica.
A conclusão surpreendeu: Quanto mais idosas as pessoas ficam, menos semelhantes são suas múltiplas condições crônicas, ou seja, em vez de uma conjunção dos fatores ligados à velhice, há na verdade uma disjunção. Esta descoberta contesta todas as recomendações clínicas baseadas apenas na idade da pessoa, como as atualmente feitas para rastreamentos de câncer de mama ou de cólon.
"Dizer que tal ou qual exame deve ser feito por uma determinada faixa etária pode ignorar nuances complexas que são únicas para cada paciente," segundo o estudo. "Aprendemos que, ao elaborar diretrizes para o atendimento clínico, é melhor baseá-las na multimorbidade de cada indivíduo, em vez de apenas na idade cronológica. Essa é uma mudança fundamental," disse Cohen.

Não é só a idade, é a individualidade
Como a idade é um parâmetro comum para diretrizes clínicas, os cientistas se questionaram se haveria padrões matemáticos subjacentes à progressão da multimorbidade ao longo do tempo que pudessem revelar quando o ponto de inflexão seria atingido - em outras palavras, em que idade a multimorbidade emerge.
Para isso foi usado o Índice de Comorbidade de Charlson, uma pontuação numérica criada para prever o risco e o custo da hospitalização. Esse índice atribui uma pontuação a uma pessoa com base no número e na gravidade de suas condições crônicas em 39 categorias. Por exemplo, infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca congestiva e doença vascular periférica recebem a pontuação 1, a mais baixa, enquanto tumor sólido metastático, AIDS e transplantes recebem a pontuação 6, a mais alta. A maioria das condições tem uma pontuação entre 1 e 3.
Em todas as localidades geográficas, "os dados mostram que, em geral, a variabilidade aumenta com a média de uma forma matematicamente consistente. Especificamente, a variância aumenta quando a média aumenta," contou Cohen. "Isso significa que a multimorbidade das pessoas se torna cada vez mais diferente da multimorbidade de outras pessoas da mesma idade à medida que envelhecem."
Isso torna a multimorbidade muito próxima da chamada lei de Taylor, que descreve a variabilidade populacional em diversos contextos, incluindo censos humanos, doenças infecciosas, vida selvagem e clima - os dados não apontam para uma unidade, mas para a diversidade.
"Este novo modelo reforça a ideia de que devemos acolher a complexidade de cada paciente individualmente, especialmente quando este apresenta múltiplas doenças crônicas. Ele também pode nos ajudar a antecipar quando o risco de hospitalização de alguém aumenta e a realizar uma intervenção específica antes que isso ocorra. Quando se trata de cuidados médicos e saúde pública, não existe uma abordagem única que sirva para todos," concluiu Cohen.
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