24/08/2026

Será possível identificar risco de esquizofrenia ainda na infância?

Redação do Diário da Saúde

Riscos de esquizofrenia

Diferenças cerebrais sutis podem indicar, ainda na infância, os primeiros sinais de esquizofrenia, antes do aparecimento dos primeiros sintomas.

Isto significa que, no futuro, uma análise do cérebro de crianças com maior risco de desenvolver a condição poderá revelar sinais de vulnerabilidade, identificando precocemente sinais de alerta e permitindo intervenções mais eficazes.

A maioria dos estudos em busca de sinais precoces de esquizofrenia tem sido realizada em adolescentes ou adultos já considerados de alto risco, tornando difícil perceber quando surgem as primeiras alterações cerebrais associadas à vulnerabilidade para a doença.

Para suprir essa carência, uma equipe internacional de pesquisadores analisou o cérebro de 88 crianças, com idades entre os 9 e os 12 anos, para avaliar se é possível detectar sinais de risco ainda na infância, antes de surgirem sintomas claros de esquizofrenia. As crianças foram divididas em três grupos: Um composto por crianças com múltiplos fatores precoces associados ao risco de esquizofrenia (como genética e histórico familiar), outro por crianças com história familiar da doença e um terceiro grupo com desenvolvimento típico.

"É fundamental estabelecer avaliações de acompanhamento sistemáticas e estratégias de intervenção personalizadas que permitam avaliar e estratificar com maior precisão o risco de desenvolvimento de esquizofrenia nestas crianças, contribuindo para um modelo de intervenção precoce mais eficaz," justificou a professora Kristin Laurens, coordenadora do estudo.

Diferenças no cérebro das crianças

A esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico complexo e crônico do desenvolvimento neurobiológico, caracterizado pela alteração no processamento do pensamento, da percepção da realidade, da cognição e das emoções. Os efeitos são por isso muito variados, incluindo do pensamento desorganizado e embotamento emocional até delírios, alucinações e comportamento motor anormal.

Os resultados mostraram que o cérebro de crianças com fatores associados ao risco de esquizofrenia pode apresentar diferenças estruturais sutis antes mesmo do aparecimento de sintomas psicóticos ou de um diagnóstico da doença.

Tanto as crianças que apresentavam múltiplos fatores precoces quanto aquelas com histórico familiar de esquizofrenia apresentaram volumes globais mais elevados de substância branca no cérebro (envolvida na comunicação entre diferentes regiões do cérebro), em comparação com os seus pares com desenvolvimento típico. Esse padrão manteve-se ao longo das várias avaliações, sugerindo que estas diferenças podem surgir muito cedo no desenvolvimento cerebral.

Além disso, as crianças com histórico familiar de esquizofrenia apresentaram diferenças na evolução do volume de substância cinzenta (envolvida no processamento de informação) no cérebro ao fim de dois anos de acompanhamento, embora com uma potencial tendência para a normalização ao longo do tempo. Contudo, essas diferenças na evolução do volume da substância cinzenta não se mantiveram estatisticamente significativas após correção para múltiplas comparações, sendo necessários estudos de maior dimensão para confirmar este resultado.

De fato, devido à reduzida dimensão da amostra de crianças, será necessário repetir o estudo com uma quantidade maior de voluntários para confirmar todos os resultados.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Trajectories of gray and white matter volume in children at elevated risk for schizophrenia
Autores: Shuqing Si, Matthew Kempton, Emily Hedges, Mathilde Antoniades, Ruth E. Roberts, Alexis E. Cullen, Kristin R. Laurens
Publicação: CNS Spectrums
Vol.: 31 Issue 1
DOI: 10.1017/S1092852926101047
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