
Eletrorretinografia em repouso
Quando a retinite pigmentosa - ou retinose pigmentar - causa a perda da visão, o teste clínico padrão apresenta resultados intrigantes: Não há nenhuma resposta, nenhum sinal, nada que possa indicar a presença da visão; no entanto, a retina continua gerando sinais elétricos espontâneos mesmo na escuridão, sem nenhuma luz presente.
David Litvin e colegas do Hospital Jules-Gonin (Suíça) conseguiram agora documentar pela primeira vez em uma pessoa viva essa atividade elétrica espontânea da retina, na ausência de luz. E os resultados mostraram um fenômeno intrigante.
A retinite pigmentosa é um grupo de doenças genéticas que destroem progressivamente os fotorreceptores, as células responsáveis pela captação da luz. Em um estágio avançado, o eletrorretinograma, o exame de referência para avaliar a função da retina, não detecta nada - o traçado é plano.
Mas uma linha sem qualquer indício de atividade não significa que a retina está morta. Por trás dos fotorreceptores perdidos, várias camadas de neurônios sobrevivem e se reorganizam, um processo chamado remodelação da retina. O resultado final desse processo foi documentado há cerca de vinte anos, em tecidos de doadores examinados após a morte.
O que ninguém havia feito era medir a atividade desses circuitos se reorganizando em um olho vivo. Litvin conseguiu isto adaptando um princípio da neurologia. O eletroencefalograma (EEG) em repouso lê a atividade espontânea do cérebro, na ausência de qualquer tarefa ou estímulo, e revela coisas que os testes baseados em tarefas não detectam. A equipe aplicou a mesma técnica ao olho, criando um novo exame que eles chamam de eletrorretinografia em repouso.
Por que isso importa
O desenvolvimento deste novo exame e seu teste com sucesso em humanos é essencial para as pesquisas visando futuros tratamentos para várias doenças oculares.
Terapias que visam restaurar a visão - incluindo implantes de retina, optogenética, abordagens regenerativas etc - dependem da capacidade da retina sobrevivente de detectar sinais externos - se ela estiver em loop, interagindo consigo mesma, isso representa um problema. O novo exame da eletrorretinograma de repouso oferece uma maneira de medir essa atividade repetidamente e de forma não invasiva à medida que a doença progride, permitindo acompanhar a degeneração quando os testes atuais não detectam nada.
A expectativa é que isso possa ajudar a identificar pacientes que estão prontos para um implante ou uma terapia de restauração e para avaliar objetivamente se um tratamento está funcionando em um ensaio clínico. O princípio não se limita à retinite pigmentosa, podendo ser estendido a outras condições que envolvem a remodelação da retina, incluindo a degeneração macular relacionada à idade.
"Esta é uma medição, não um tratamento," ressalta Litvin. "Ele não restaura a visão e não altera o prognóstico de ninguém hoje. Estamos falando de anos de validação, não de algo pronto para uso clínico. O que este estudo fez foi dar credibilidade à direção e nos fornecer uma maneira não invasiva de começar."
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