18/11/2019

Para corrigir informações e notícias falsas, não basta desmentir

Redação do Diário da Saúde
Para corrigir informações e notícias falsas, não basta desmentir
"Para efetivamente mudar as crenças, precisamos dar aos consumidores uma explicação alternativa de causa e efeito."
[Imagem: CC0 Public Domain/Pixabay]

Retratação de notícias e informações

É mais difícil para os consumidores internalizar informações quando empresas ou organizações desmentem notícias ou voltam atrás em informações divulgadas anteriormente do que quando eles lidam com o assunto pela primeira vez.

Assim como o procedimento conhecido como recall é usado para consertar defeitos em produtos, o "conserto" de informações ou notícias incorretas é conhecido como retratação.

Mas parece que mudar nosso entendimento anterior das notícias que ouvimos ou dos produtos que usamos nem sempre é fácil, mesmo quando a manutenção da falsidade pode ter consequências sérias.

Por exemplo, em um primeiro momento, uma empresa farmacêutica pode apresentar um testemunho sobre experiências positivas de pacientes com um novo medicamento, além de detalhes sobre os possíveis efeitos colaterais e interações com outros medicamentos. Mais tarde, se a empresa anunciar que o medicamento é menos eficaz do que o relatado anteriormente, muitas pessoas continuarão se apegando à crença de que o medicamento funciona.

Cadeias de eventos

"Quando as pessoas leem ou ouvem histórias, elas constroem modelos mentais de eventos que são interligados em uma cadeia de causa-efeito, e isso é incorporado em suas memórias," explica Anne Hamby, professora da Universidade Estadual Boise (EUA).

Mesmo que essas pessoas descubram mais tarde que um aspecto dessa cadeia de eventos está incorreto, é difícil para elas mudar a memória da história, já que isso criaria uma lacuna na cadeia - isso é conhecido como efeito de influência contínua.

Para estudar esse efeito, a equipe da professora Hamby realizou um experimento no qual os participantes liam sobre um homem que foi diagnosticado com uma doença e tomou um medicamento prescrito para ser tomado à noite com um copo de limonada. O remédio não funciona e ele volta ao médico. Metade dos participantes leu que o médico explica por que o medicamento não funcionou: O homem precisaria tomar o medicamento pela manhã porque os hormônios liberados à noite bloqueiam a eficácia do medicamento. Os outros participantes não obtiveram uma explicação sobre o porquê da droga ser ineficaz.

No final da história, todos os participantes recebem outra informação, a de que alimentos e bebidas à base de citros interfeririam na absorção dos medicamentos. Mais tarde, eles descobrem que essa informação é falsa.

Os resultados mostraram que os participantes que não obtiveram uma explicação para a ineficácia da droga tiveram dificuldade em rejeitar a falsidade da interação droga-citros.

Explicações substitutas

Embora seja difícil mudar uma versão existente dos eventos, os pesquisadores descobriram que as pessoas estão mais dispostas a atualizar suas memórias se algo ruim acontecer a um personagem, como uma morte ou doença grave. "As pessoas estão mais motivadas a fazer o trabalho mental de atualizar a história se a mudança levar a um resultado melhor, porque o bem-estar do personagem pode estar relacionado ao seu próprio bem-estar," explicou Hamby.

A pesquisadora espera que essas descobertas sirvam de base para a ação das empresas e das organizações de notícias quando eles necessitarem retratar-se de informações erradas.

"Pode não funcionar simplesmente enviar um comunicado de imprensa ou fazer um anúncio de serviço público dizendo que as informações estão incorretas," diz ela. "Para efetivamente mudar as crenças, precisamos dar aos consumidores uma explicação alternativa de causa e efeito. Por exemplo, ao invés de dizer que estudos anteriores que ligam o autismo a vacinas são falsos, pode ser mais sensato explicar outras causas do autismo."

Checagem com artigo científico:

Artigo: How Stories in Memory Perpetuate the Continued Influence of False Information
Autores: Anne Hamby, Ullrich Ecker, David Brinberg
Publicação: Journal of Consumer Psychology
DOI: 10.1002/jcpy.1135

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