
Diagnósticos na psiquiatria
Quando diferentes psiquiatras avaliam o mesmo paciente, esses especialistas chegam a um acordo em relação ao diagnóstico em pouco mais da metade dos casos. É quase o mesmo que o acaso, já que a chance de lançar uma moeda e obter cara ou coroa é de 50% para cada um.
Essa constatação levanta preocupações alarmantes sobre diagnósticos errôneos, tratamentos inadequados e erros em pesquisas psiquiátricas.
Nos últimos 50 anos, organizações como a Associação Norte-Americana de Psiquiatria e a Organização Mundial da Saúde (OMS) têm trabalhado para desenvolver critérios diagnósticos padronizados que psiquiatras de todo o mundo possam usar. Mas parece que esses esforços não surtiram efeito.
No levantamento feito agora, 1.038 psiquiatras e médicos que atuam na área de psiquiatria, de 19 países, receberam nove descrições escritas de casos clínicos. Cada participante recebeu dois casos e devia determinar o diagnóstico mais apropriado para cada um.
"Nosso estudo mostra que, quando dois psiquiatras diagnosticam o mesmo paciente, eles concordam em apenas 55% dos casos. Consideramos esse índice preocupantemente baixo. Na verdade, é semelhante aos níveis relatados em alguns estudos realizados na década de 1970, que motivaram o desenvolvimento de critérios diagnósticos padronizados," disse a professora Julie Nordgaard, da Universidade de Copenhague (Dinamarca).
Não foram encontradas diferenças significativas entre os clínicos mais experientes e os menos experientes, sugerindo que a discordância não pode ser explicada por variações na experiência profissional.
Errando o alvo
O estudo constatou uma variação substancial na concordância diagnóstica entre diferentes transtornos mentais. Os diagnósticos dentro do espectro da esquizofrenia mostraram-se particularmente problemáticos - a precisão diagnóstica ficou entre 37 e 54% para esquizofrenia e transtornos relacionados. No outro extremo, os resultados foram melhores para transtorno bipolar (94%) e transtorno obsessivo-compulsivo (92%).
"Os casos que poderiam ser diagnosticados tanto como esquizofrenia quanto como transtorno esquizotípico geraram níveis especialmente altos de discordância. Em muitos desses casos, a concordância entre os participantes ficou bem abaixo de 50%," contou o pesquisador Mateo Boberg.
"Esses não são erros aleatórios. Há um padrão claro nas divergências. Isso provavelmente reflete o fato de que as categorias diagnósticas não são tão claramente definidas quanto presumimos, visto que psiquiatras experientes podem interpretar as mesmas apresentações de sintomas de maneiras tão diferentes," acrescentou.
"Não se trata de os psiquiatras estarem fazendo um trabalho ruim. Pelo contrário, isso reflete o fato de que, apesar da existência de sistemas de diagnóstico, os clínicos continuam a divergir na forma como interpretam os sintomas e nas características que consideram mais importantes. Precisamos de um maior grau de consenso, caso contrário os pacientes correm o risco de receber diagnósticos e tratamentos contraditórios," concluiu Nordgaard.
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