
A importância dos sonhos
Por que alguns sonhos são tão vívidos que parecem quase reais, enquanto outros se desenrolam como fragmentos confusos, difíceis de lembrar ou compreender?
A resposta pode depender de uma combinação de personalidade, qualidade do sono, hábitos mentais e eventos importantes que ocorreram no mundo real.
Apesar de uma tradição milenar, que sempre considerou os sonhos como um elemento importante da personalidade e do comportamento das pessoas, durante o século XX a ciência acadêmica reduziu os sonhos a "coleções aleatórias de imagens e pensamentos" sem nenhuma importância.
Mas Valentina Elce e colegas da Escola de Estudos Avançados Lucca (Itália) mostraram que os sonhos são moldados tanto por diferenças individuais quanto por experiências compartilhadas, incluindo grandes rupturas sociais, como a pandemia de covid-19.
"Nossos resultados mostram que os sonhos não são apenas um reflexo de experiências passadas, mas um processo dinâmico moldado por quem somos e pelo que vivenciamos," explicou a pesquisadora. "Ao combinar dados em larga escala com métodos computacionais, conseguimos descobrir padrões no conteúdo dos sonhos que antes eram difíceis de detectar."

Sonhos como reconstrução da realidade
A pesquisa examinou mais de 3.700 descrições de sonhos e experiências de vigília de 287 pessoas com idades entre 18 e 70 anos. Também foram coletadas informações sobre os hábitos de sono, personalidade, habilidades cognitivas e características psicológicas de cada pessoa.
Esse amplo conjunto de informações permitiu comparar as experiências das pessoas enquanto acordadas com as histórias, cenários e emoções que surgiam em seus sonhos.
Os resultados mostraram que o conteúdo dos sonhos não é completamente aleatório e nem inerentemente caótico. Em vez disso, os sonhos refletem uma mistura complexa de características pessoais, incluindo uma tendência à divagação mental, interesse por sonhos e a qualidade do sono da pessoa. Eventos que ocorriam no mundo real também influenciam o que as pessoas sonham.
A comparação das descrições da vida desperta dos participantes com seus relatos de sonhos mostrou que o cérebro não parece reproduzir as experiências diárias exatamente como elas aconteceram; em vez disso, detalhes familiares são transformados. Um local de trabalho, um hospital, uma sala de aula ou outro ambiente cotidiano podem aparecer no sonho, mas frequentemente vêm combinados com lugares não relacionados, pontos de vista variáveis ou arredores desconhecidos.
De fato, diferentes partes da vida de uma pessoa podem se fundir em uma única cena vívida, mostrando que sonhar não é um simples sistema de "reprodução" de acontecimentos anteriores. A mente adormecida parece reorganizar fragmentos da realidade, combinando memórias com imaginação, expectativas e possíveis experiências futuras.
Os pesquisadores envolvidos neste trabalho agora sonham com o dia em que seus colegas cientistas voltem a aceitar os sonhos como parte integrante do ser humano, não apenas trazendo informações importantes sobre a personalidade e o comportamento, como também viabilizando diferentes possibilidades terapêuticas.
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