20/07/2026

Brasileiros descobrem como desativar células que espalham o câncer

Com informações da Agência Fapesp
Brasileiros descobrem como desativar células do câncer
Para formar os tecidos do organismo, as células precisam estar ancoradas umas às outras; quando uma célula normal se desprende desse ambiente, ela ativa um mecanismo de autodestruição. No câncer, porém, esse processo de proteção é subvertido.[Imagem: NCI/Unsplash]

Evitar a metástase

Uma proteína encontrada na superfície das células - chamada SDC4 (sindecam-4) - é um potencial alvo a ser explorado no combate ao câncer.

Usando culturas celulares, cientistas brasileiros demonstraram que bloquear essa molécula funciona como uma espécie de freio biológico: Além de paralisar a divisão celular, o bloqueio elimina a proteção que as células tumorais usam para sobreviver soltas no organismo, neutralizando o principal mecanismo que facilita as metástases.

"Nosso estudo mostra que a SDC4 pode se tornar um alvo terapêutico promissor e servir como marcador diagnóstico para acompanhar a progressão de tumores. A estratégia de silenciar essa molécula tem potencial para impedir a proliferação de células cancerosas, mas ainda estamos em fases iniciais da pesquisa e seria necessário validar os resultados em cada caso específico da doença," disse a professora Carla Cristina Lopes, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Para formar os tecidos do organismo, as células precisam estar ancoradas umas às outras e à matriz extracelular, que funciona como uma espécie de preenchimento entre elas. Quando uma célula normal se desprende desse ambiente, ela ativa um mecanismo natural de autodestruição chamado anoikis, um termo de origem grega que pode ser traduzido como "morte por falta de casa".

No câncer, porém, esse processo de proteção é subvertido: As células tumorais mais agressivas adquirem a capacidade de resistir à anoikis, o que lhes permite sobreviver soltas, migrar pela corrente sanguínea e colonizar outros órgãos, fenômeno conhecido como metástase.

É nesse contexto que a proteína SDC4 ganha destaque. Em condições normais, as células produzem a SDC4 para desempenhar funções essenciais, como a própria adesão aos tecidos. O problema surge quando ocorre uma produção excessiva (superexpressão) dessa molécula, o que está diretamente associado ao desenvolvimento e à progressão da doença. A equipe brasileira se concentrou justamente em evitar essa superexpressão.

Silenciando a proteína

Inicialmente, a equipe forçou células de vasos sanguíneos (endoteliais) a ficarem soltas no meio de cultura, impedindo que se fixassem em qualquer superfície. Como era esperado, a grande maioria não resistiu, mas um pequeno grupo - menos de 5% - conseguiu sobreviver a essa "falta de casa". Essas células sobreviventes se tornaram altamente agressivas e passaram a produzir a proteína SDC4 em quantidades exageradas.

Usando técnicas de engenharia genética, os cientistas então silenciaram, ou desligaram, a SDC4 nas células. O resultado confirmou a suspeita: Sem a presença da proteína, as células perderam suas características malignas e voltaram ao estado normal, dependendo novamente da adesão física a uma superfície para continuarem vivas.

"Essa reversão aumentou significativamente a morte programada e reduziu a capacidade invasiva das células, indicando a SDC4 como um alvo terapêutico promissor para conter a metástase antes que ela se estabeleça," reforçou Carla.

Os resultados ainda precisam ser replicados em células humanas - incluindo células tumorais - para que a pesquisa possa avançar na direção de uma aplicabilidade clínica.

 

Fonte: Diário da Saúde - www.diariodasaude.com.br

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