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23/06/2026 A maior parte da composição dos alimentos ainda é um mistérioDavid Benton - The Conversation![]()
Nutrição e alimentação: "Coma isto" é melhor do que "Não coma aquilo".[Imagem: Daniel Miller]
A química oculta dos alimentos Quando os cientistas decifraram o genoma humano em 2003 - sequenciando todo o código genético de um ser humano - muitos esperavam que isso revelasse os segredos das doenças. Mas a genética explicou apenas cerca de 10% do risco [de alguém ficar doente]. Os outros 90% dos riscos estão no ambiente - e a dieta desempenha um papel fundamental. Em todo o mundo, uma alimentação inadequada está ligada a cerca de uma em cada cinco mortes entre adultos com 25 anos ou mais. Na Europa, ela é responsável por quase metade de todas as mortes por doenças cardiovasculares. Mas, apesar de décadas de recomendações sobre a redução do consumo de gordura, sal ou açúcar, a obesidade e as doenças relacionadas à alimentação continuaram a aumentar. Claramente, algo está faltando na forma como pensamos sobre a alimentação. Durante anos, a nutrição tem sido geralmente apresentada em termos bastante simples: Alimentos como combustível e nutrientes como os blocos de construção do corpo. Proteínas, carboidratos, gorduras e vitaminas - cerca de 150 substâncias químicas conhecidas no total - têm dominado o cenário. Mas os cientistas agora estimam que nossa dieta na verdade fornece mais de 26.000 compostos, a maioria dos quais ainda é desconhecida. É aqui que a astronomia oferece uma comparação útil. Os astrônomos sabem que a matéria escura compõe cerca de 27% do universo. Ela não emite nem reflete luz e, portanto, não pode ser vista diretamente, mas seus efeitos gravitacionais revelam sua existência. A ciência da nutrição enfrenta um desafio semelhante. A grande maioria dos compostos químicos presentes nos alimentos é invisível para nós em termos de pesquisa. Consumimos esses compostos diariamente, mas temos pouca ideia de suas funções. Alguns especialistas se referem a essas moléculas desconhecidas como "matéria escura nutricional". Isso nos lembra que, assim como o cosmos está repleto de forças ocultas, nossa dieta está repleta de química oculta. Quando os pesquisadores analisam doenças, eles examinam uma vasta gama de alimentos, embora muitas vezes não seja possível encontrar uma associação com moléculas conhecidas. Essa é a matéria escura da nutrição: Os compostos que ingerimos diariamente, mas que ainda não foram mapeados ou estudados. Alguns podem promover a saúde, enquanto outros podem aumentar o risco de doenças. O desafio é descobrir quais deles fazem o quê. ![]() Como comer tarde ou dormir pouco pode afetar sua saúde. [Imagem: Krzysztof Niewolny/Pixabay] Nutrigenômica O campo da "alimentômica" visa justamente isso: A nutrigenômica reúne genômica (o papel dos genes), proteômica (proteínas), metabolômica (atividade celular) e nutrigenômica (a interação entre genes e dieta). Essas abordagens estão começando a revelar como a dieta interage com o corpo de maneiras que vão muito além de calorias e vitaminas. Considere a dieta mediterrânea (rica em frutas, vegetais, grãos integrais, leguminosas, nozes, azeite de oliva e peixe, com consumo limitado de carne vermelha e doces), por exemplo, que é conhecida por reduzir o risco de doenças cardíacas. Mas por que ela funciona? Uma pista está em uma molécula chamada TMAO (óxido de trimetilamina), produzida quando as bactérias intestinais metabolizam compostos presentes na carne vermelha e nos ovos. Altos níveis de TMAO aumentam o risco de doenças cardíacas. Mas o alho, por exemplo, contém substâncias que bloqueiam sua produção. Este é um exemplo de como a dieta pode influenciar o equilíbrio entre saúde e malefícios. As bactérias intestinais também desempenham um papel fundamental: Quando os compostos chegam ao cólon, os micróbios os transformam em novas substâncias químicas que podem afetar a inflamação, a imunidade e o metabolismo. Por exemplo, o ácido elágico - encontrado em diversas frutas e nozes - é convertido pelas bactérias intestinais em urolitinas, um grupo de compostos naturais que ajudam a manter nossas mitocôndrias (as usinas de energia do corpo) saudáveis. Isso demonstra como a alimentação é uma complexa rede de substâncias químicas que interagem entre si. Um único composto pode influenciar diversos mecanismos biológicos, que, por sua vez, podem afetar muitos outros. A dieta pode até mesmo ativar ou desativar genes por meio da epigenética - alterações na atividade gênica que não alteram o DNA em si. A história nos oferece exemplos marcantes disso. Por exemplo, crianças cujas mães sofreram com a fome na Holanda durante a Segunda Guerra Mundial apresentaram maior probabilidade de desenvolver doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e esquizofrenia na vida adulta. Décadas depois, os cientistas descobriram que a atividade gênica dessas crianças havia sido alterada pela alimentação - ou pela falta dela - de suas mães durante a gravidez. ![]() Veja o que os cientistas falam sobre as controvérsias em relação às gorduras e aos riscos ao coração. [Imagem: CC0 Public Domain/Pixabay] Mapeando o universo alimentar Projetos como o Projeto Nutrigenoma estão agora tentando catalogar esse universo químico oculto. Mais de 130.000 moléculas já foram listadas, conectando compostos alimentares a proteínas humanas, micróbios intestinais e processos de doenças. O objetivo é construir um atlas de como a dieta interage com o corpo e identificar quais moléculas realmente importam para a saúde. A esperança é que, ao entendermos a matéria escura nutricional, possamos responder a perguntas que há muito tempo frustram a ciência da nutrição: Por que certas dietas funcionam para algumas pessoas, mas não para outras? Por que os alimentos às vezes previnem e às vezes promovem doenças? Quais moléculas alimentares poderiam ser aproveitadas para desenvolver novos medicamentos ou novos alimentos? Ainda estamos no começo, mas a mensagem é clara: A comida em nosso prato não consiste apenas de calorias e nutrientes, mas em uma vasta paisagem química que estamos apenas começando a mapear. Assim como o mapeamento da matéria escura cósmica está transformando nossa visão do universo, descobrir a matéria escura nutricional pode transformar a forma como nos alimentamos, como tratamos doenças e como entendemos a própria saúde. David Benton, autor deste artigo, é professor de Ciências Humanas e da Saúde na Universidade de Swansea (Reino Unido). Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation, no qual poderá ser lida a versão original. Fonte: Diário da Saúde - www.diariodasaude.com.br URL: A informação disponível neste site é estritamente jornalística, não substituindo o parecer médico profissional. Sempre consulte o seu médico sobre qualquer assunto relativo à sua saúde e aos seus tratamentos e medicamentos. |
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