04/02/2020

Coronavírus pode ser menos letal, mas vírus de animais preocupam

Com informações da Agência Fapesp
Coronavírus pode ser menos letal, mas vírus de animais preocupam
Profissionais de saúde se articulam para identificar casos suspeitos, coletar amostras de secreções para análise e tratar os pacientes infectados pelo coronavírus 2019-nCoV.[Imagem: CDC]

Calor pode manter coronavírus fora do Brasil

Apesar de vários casos suspeitos já registrados no Brasil, a boa notícia é que as temperaturas altas do verão podem dificultar a chegada e o avanço da nova variedade de coronavírus que emergiu em dezembro - auge do inverno do hemisfério Norte, onde o clima frio favorece sua sobrevivência e transmissão.

Por outro lado, o intenso comércio com o China, hoje o principal importador de produtos brasileiros, poderia facilitar a circulação de pessoas e da nova variedade do patógeno, chamada provisoriamente de 2019-nCoV.

Outra constatação é que, apesar a OMS ter declarado o surto do coronavírus uma emergência de saúde pública global, o que implica ação coordenada entre os países, o 2019-nCoV não parece ser tão agressivo quanto os surtos anteriores.

"O vírus da Sars [síndrome respiratória aguda grave] era mais letal que essa nova variedade," comenta o virologista Edison Luiz Durigon, USP. "Em 2002 e 2003, a Sars, causada por outra variedade de coronavírus, que começou também na China em 2002 e, até o ano seguinte, apresentou uma letalidade [mortes por casos confirmados] de 10% - infectou cerca de 8 mil pessoas e matou aproximadamente 800. A síndrome respiratória do Oriente Médio [Mers] surgiu em 2014, causada também por um coronavírus, infectou 2.494 pessoas e, até este ano, causou 858 mortes, com uma letalidade de 34%, enquanto a da variedade atual foi estimada em 2,1%.

"Pode ser que essa nova variedade não chegue ao Brasil, como a da Sars não chegou, porque seu avanço foi possivelmente bloqueado pelas temperaturas altas das regiões tropicais," reforçou Durigon. A China tenta bloquear a circulação do vírus limitando a saída de pessoas das regiões com maior número de casos.

Ainda não há tratamento específico para esse tipo de vírus, transmitido de pessoa para pessoa por meio de perdigotos - gotículas de secreção expulsas da boca e nariz durante a fala, tosse ou espirro.

Quem está pegando o 2019-nCoV

Em artigo publicado em 24 de janeiro na revista médica The Lancet, uma equipe do Hospital Jin Yin-tan, de Wuhan, descreveu a evolução da doença em 41 pessoas tratadas nos hospitais da cidade.

A maioria (73%) era homem com idade média de 49 anos (66%) e menos da metade (32%) tinha alguma doença anterior, como hipertensão ou diabetes; 27 deles tinham se exposto a um mercado de frutos do mar de Wuhan apontado como provável origem do vírus. Quase todos (98%) tiveram febre e tosse (76%) e falta de ar (55%). Todos tiveram pneumonia, 13 passaram por unidades de terapia intensiva e seis (15%) morreram.

Já uma equipe do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China (CDC China) relatou na revista New England Journal of Medicine a evolução clínica de três pacientes - todos homens, com 32, 49 e 61 anos - hospitalizados por causa da infecção; o mais velho, frequentador assíduo do mercado de frutos do mar, morreu 27 dias depois de ter sido hospitalizado.

Coronavírus humanos

Variedades de coronavírus humanos menos patogênicas que as vindas diretamente de animais silvestres, como o 2019-nCoV, já circulam no Brasil.

A maioria dessas cepas geralmente causam resfriados comuns, embora às vezes possam provocar doenças respiratórias graves.

"O Brasil tem suas próprias variedades de coronavírus silvestres, que poderiam causar problemas se passarem de animais para as pessoas," diz Durigon. Em 2015, o biólogo Luiz Gustavo Góes examinou 401 amostras de intestinos de 17 espécies de 202 morcegos coletadas de 2010 a 2014 em áreas urbanas (192 animais) e rurais (10) de 14 municípios do noroeste paulista, em busca de coronavírus. Outras 199 amostras foram coletadas no Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná.

Como detalhado em artigo na revista Infection, Genetics and Evolution, Góes identificou 15 variedades silvestres de coronavírus em intestinos de oito espécies de morcegos; um dos animais examinados era um Eumops glaucinus, de pelagem preta e orelhas grandes, que tinha sido capturado por um gato doméstico antes de ser recolhido por um morador de Araçatuba e levado à Unesp.

Não houve registros de infecções causadas por vírus de morcegos em pessoas. Mesmo assim, alerta Durigon, "temos de ficar alertas e intensificar o monitoramento de vírus emergentes em animais silvestres".

Coronavírus + rinovírus

Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (SP) identificaram quatro tipos de coronavírus humanos em 11% de um grupo de 236 crianças com 3,5 meses e problemas respiratórios internadas em 2008 e 2009. "Foi uma surpresa; o coronavírus, sozinho ou associado com outra espécie de vírus, o rinovírus C, foi um indício de gravidade do caso e de necessidade de internação na unidade de terapia intensiva," diz o virologista Eurico Arruda, coordenador de um estudo publicado em junho de 2019 na PlOS ONE com esses resultados.

Nesse trabalho, o microrganismo respiratório mais comum foi o rinovírus (85% dos casos), seguido pelo vírus sincicial (59%), bocavírus (23%) e adenovírus (17%), com 198 crianças apresentando infecções causadas por mais de um tipo. Foram para a UTI 47 crianças, 25 receberam ventilação mecânica e oito morreram.

"As formas mais graves de coronavírus sempre estiveram associadas a animais silvestres," observa Arruda. Como aquela responsável pela Sars e Mers, a nova variedade - a sétima causadora de doenças em seres humanos já identificada - parece ter vindo de morcegos, os reservatórios naturais desse tipo de organismo, de acordo com análises genéticas de centros de pesquisa da China. Transmitido às pessoas por meio das fezes de morcegos, o vírus liga-se a receptores de membranas de células de mucosas respiratórias, sofre adaptações, multiplica-se e pode infectar outras pessoas.

Precauções contra o coronavírus

Entre as recomendações da OMS para evitar o contágio estão: lavar frequentemente as mãos com água e sabão ou álcool em gel; cobrir boca e nariz com o braço flexionado ao espirrar ou tossir; evitar contato próximo com qualquer pessoa que tenha febre ou tosse; procurar ajuda médica se tiver febre, tosse e dificuldade para respirar e compartilhar o histórico de viagem com profissionais da saúde; evitar contato direto e desprotegido com animais vivos ao visitar mercados nas áreas afetadas pelo vírus; evitar comer produtos de origem animal, crus ou malcozidos e ter cuidado ao manusear carne crua, leite ou órgãos de animais que possam conter vírus.

 

Fonte: Diário da Saúde - www.diariodasaude.com.br

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