27/10/2020

Descoberto como um vírus pode causar diabetes

Redação do Diário da Saúde
Descoberto como um vírus pode causar diabetes
Ilhotas de Langerhans com células beta produtoras de insulina (em vermelho) e glucagon secretor de células alfa (em verde).[Imagem: CNIO]

Enterovírus que causa diabetes

Recentemente, cientistas descobriram que a infecção por alguns enterovírus - um gênero de vírus que comumente causa doenças de gravidade variada - poderia potencialmente desencadear o diabetes, embora seu efeito direto "in vivo", bem como seu mecanismo de ação em nível molecular, sejam desconhecidos.

Agora, Hugo Bernard e seus colegas do Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas da Espanha (CNIO) demonstraram pela primeira vez como o enterovírus CVB4 (coxsackievirus tipo B4) pode induzir o diabetes.

Essa descoberta pode ser um passo fundamental para abrir caminho para a busca de novas estratégias terapêuticas e para elucidar outros casos de "doenças misteriosas" causadas por enterovírus, incluindo vírus que infectam o coração.

Os pesquisadores também apontam que a descoberta pode ser relevante para a pandemia de covid-19, uma vez que informações clínicas indicam uma possível relação entre a infecção viral por SARS-CoV-2 e o diabetes.

A equipe sugere que, como o receptor do SARS-CoV-2 é expresso no pâncreas endócrino, ele pode operar e levar ao diabetes de maneira semelhante ao CVB4, independentemente das reações imunológicas.

Vírus e falhas na produção de insulina

Os coxsackievírus pertencem à família dos enterovírus, que também inclui o poliovírus e o echovírus, e que podem causar desde doenças leves, como a gripe, até doenças mais graves, como miocardite, pericardite, meningite ou pancreatite.

A equipe espanhola se concentrou nos mecanismos moleculares envolvendo casos já relatados de infecção pelo enterovírus e a emergência do diabetes em humanos.

Para isso, eles trabalharam com modelos animais enxertados com células pancreáticas humanas infectadas pelo CVB4, bem como com células humanas e de camundongo produtoras de insulina, também infectadas com esse vírus, isoladas em laboratório.

O que eles observaram foi que a infecção por CVB4 induz a desregulação da URI, uma proteína que regula as funções normais de várias atividades celulares.

"Neste caso, a regulação negativa da URI desencadeia uma cascata de eventos moleculares que levam à modificação do genoma via hipermetilação e silenciamento do Pdx1, um gene crítico para a identidade e função das células beta presentes no pâncreas endócrino, chamada ilhotas de Langerhans, e responsáveis pela produção e secreção de insulina, um hormônio que diminui os níveis de glicose no sangue.

"O silenciamento do PDX1 causa a perda de identidade e de função das células beta, que se tornam mais parecidas com células alfa, responsáveis por aumentar os níveis de glicose no sangue e, portanto, levar à hiperglicemia e subsequente diabetes, independentemente de quaisquer reações imunológicas," explicou o pesquisador Nabil Djouder.

Terapêutica antiviral

Os pesquisadores sugerem que, a partir desses resultados, uma possível estratégia de prevenção e terapêutica seria a utilização, em combinação com terapias antivirais, de inibidores da DNA metilase transferase, uma proteína responsável pela hipermetilação do genoma e silenciamento do PDX1.

De fato, a equipe demonstrou que esta classe de inibidores restabeleceu a expressão do PDX1 e a tolerância à glicose em camundongos diabéticos. Vários desses inibidores já foram licenciados para uso clínico em tratamentos de câncer, o que pode acelerar sua aplicação nesses casos. Mas isso envolverá testes clínicos específicos ainda por serem realizados.

 

Fonte: Diário da Saúde - www.diariodasaude.com.br

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